A realitupia é uma avezinha que eu
inventei para avivar as cores do jardim dos passarinhos que fica na rua mais bonita do meu país de sombras.
É um pássaro pequenino, dourado e verde
com asas translúcidas de vento.
Por vezes, atreve-se a pousar na mesa debaixo
da árvore onde escrevo para debicar minúcias, entre os meus versos.
Deslumbra-me! Acontece-me, quase sempre,
uma repentina vontade de a tocar como coisa real mas, antes que tenha tempo de balbuciar
qualquer gesto, já ela bateu asas, desenhando-se infinito.E é como se nunca
tivesse estado ali.
Sigo-lhe, na distância, a vertigem do
voo, as asas em amplo ângulo, o corpo frágil, leve, o planar aberto a
qualquer desvario.
Subitamente a minha realitupia não é
mais do que um minúsculo ponto verde a tremeluzir na largueza do céu.
Magicamente, outros pontos iguais aparecem à sua volta. Confundem-se,
avolumam-se, formam nuvens densas. Descubro, deste modo, que não é única, a
minha realitupia.
Começa a chover. É uma chuva fina como
poalha de oiro. Pequeníssimas gotas de água unidas por fios de luz de aveludadas transparências.
Uma chuva leve, porém capaz de varrer
a loucura dos homens, de lhes lavar a alma e harmonizar o pensamento – sempre que um homem sonha o mundo pula e
avança - Não me venham dizer que é utopia!
A minha realitupia é filha do sonho
e da vida e voa livre nas veias dos homens de coração puro. Força-os a olhar para
cima, para verem a luminosidade dos pontos verdes que adejam, reflexos visíveis
da esperança, mas lembra que tanto brilho pode, momentaneamente, cegar. É
preciso aliviar os olhos, olhar também em frente e à nossa volta, com todos os
sentidos, em alerta. E, se doer, gritar um Basta de revolta, um Assim
Não. Inventar vastidão ao “possível” e descobrir os recantos de um espaço
para construir cidades mais bonitas, mais “reais”, mais autênticas…
Talvez então, a realitupia possa ser
uma ave verdadeira pousada sobre a mesa dos meus sonhos.
Imagem net s/ ind. de autoria

10 comentários:
A sua realitupia
existe
estou a vê-la
nos seus poemas
Também me acontece ciclicamente
no tempo das andorinhas
no alpendre mesmo em cima da mesa
onde aprendo a voar
Bjs
ave, ave poeta
ave/nave/salve
beijo
Uma utopia com toques de realidade ou será o contrário?
Que bela "crónica" deliciosamente contada.
bj
É uma faceta dos pássaros, desconfiar. Só aquele que cresce nas tuas mãos pode chegar, mas não sempre, a comer dessa mão.
Gostei desta semelhança. Oxalá viesse uma chuva assim que levasse todo aquilo que nos apoquenta.
Beijinhos
Oxalá!
Um beijo
Está francamente belo... demais.
Muitíssimo belo. Parabéns...
Beijo amigo
Talvez quem sabe!
Excelente semelhança.
beijinho e uma flor
Este sonho é sublime,
tem asas de poesia
e pousa de preferência
em coração puro de beleza...
Belíssimo e encantador, Lídia!
Beijinho.
Gostei do texto, de saber outro nome para esta ave maravilhosa! É bom saber ver, saber sonhar e dizê-lo assim.
Bji
Lídia,
Partilho essa realitupia. Por inteiro.
Beijo :)
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