quarta-feira, 25 de setembro de 2013

árias dispersas em aguaceiros de outono

                                                                                                                                       
     Sooni Kim

além enfurecida ficou a cidade
ruge aos transeuntes surdos
árias diferentes (dizem)
tecidas nos mesmos teares
únicas e puras invariavelmente

todas as sílabas são de ar
vazias como caixas de vento
bebo-lhes de um trago a cor
que lavra no seio das raízes
a pulsação de forças inconfessas.
o tempo é uma sombra oblíqua
de insondáveis passos sem rota definida

gastei o verão até ao fim
em inúteis fraquezas
regresso agora à terra humedecida 
a luz debruça-se materna
sobre as coisas translúcidas da manhã
como sempre acontece quando a visão se dilata

a chuva canta só para mim e os meus sentidos
entregam-se-lhe porque ela é fonte.

e ao olvido

porque ele é manso. 


8 comentários:

São disse...

O tempo é oblíquo, mas eterno e imóvel, e de chuva gosto pouco.

Mas adoro Leonard Cohen, que felizmente vi ao vivo em Lisboa, há anos.

Bons sonhos.

Unknown disse...

uhh que poema



beijo

Mar Arável disse...

Que chovam relâmpagos

Bj

Emília Simões disse...

Belíssimo poema, Lídia! E dessa fonte que jorra gotas de água balsâmica beberemos a esperança. Um beijinho Ailime

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

águas mansas se dissolvem em nós e na tarde....

:(

Anónimo disse...

Tudo parece mais calmo depois dos temporais...

Belo, Lídia.

Beijo.

Mel de Carvalho disse...

"todas as sílabas são de ar
vazias como caixas de vento..."

isto é poesia, Lídia. a tua escrita nunca pára de me surpreender. encontras sempre novas formas de dizer o verbo.

bem hajas
beijo daqui
Mel

Anónimo disse...

Adorei! Bji