terça-feira, 1 de outubro de 2013

não fossem tão pobres as palavras...

Anahí Lazzaroni

não fossem tão pobres as palavras  
que me restam
e diria a cor das paredes para lá do branco 
que cai vertical sobre os rodapés   

o canto de um galo vem
rasgar a solidão do instante e num ímpeto
velhas crianças irrompem de uma frincha do tempo
para encher de verde o vale da memória

debruça-se sobre o pátio ao longe
o rumor da luz de outono
pousando coroas douradas nas copas das árvores
nas correrias e nas cantigas de roda que esvoaçam

não fossem tão pobres as palavras 
que me restam
e havia de arrancar das paredes em largas pinceladas
o riso franco das crianças a música das searas
a alegria doce das maçãs e dos figos a chuva miudinha
gotas de azul salpicando o painel 

e os poemas que ao amadurecerem
se me enredam nas mãos
porque a voz  tropeça na morfologia do vento
sem querer soletrar nuvens trovões ou invernias 
não vão as crianças encher-se de frio ou medo
e partir em bandos apressadamente
como as aves

a voz arrefece na iminência do silêncio





19 comentários:

Branca disse...

Reflexóes num serão de Outono, que me encantam.

Beijos

lis disse...

Oi Lídia
Vou deixar um trechinho de Rubem Alves que deixei lá no meu blog e lembrei-me enquanto lia seu poema :
'...as flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando...'
Há toda palavra em ti Lídia e delas dependemos nós todos que amamos a beleza da poesia,
obrigada _ muito lindo !

Rosa dos Ventos disse...

Se são assim as tuas palavras quando pobres imagina como seriam se fossem ricas!:)
Gostei muito do poema!

Abraço

Unknown disse...

tão pobres as palavras se enlevam e elevam-se

beijo

Laços e Rendas de Nós disse...


E pintar-se-ia um arco-íris no solo.
Preciosa esta falta de palavras! :)

Um beijo

Laura

O Puma disse...

Com pobres palavras se escrevem belos poemas
é o desafio encantador

Emília Simões disse...

Boa tarde Lídia, tão belo o seu poema e tão rico em memórias e sentimentos que me emocionei! Pobres e parcas são as minhas palavras para tecer um elogio como merece. Muito obrigada por este sublime momento poético. Um beijinho. Ailime

Maria Alice Cerqueira disse...

Boa tarde Lídia
Lindo poema!
Contendo o sonho de um amanhecer coberto de alegria, paz e amor!
O resgate além do que nosso olhar pode alcançar!
uma linda semana para você!
abraço amigo!
Maria Alice

Isabel disse...

Não podem ser pobres as palavras que dão tão rico poema!

Um beijo!

Graça Sampaio disse...

Muito bom! Gostei muito, Mesmo muito!
Quanta beleza, mas quanta amargura...

Beijinho.

Lilá(s) disse...

Pobres palavras esssa que me tocam tanto, porque aprecio poemas com grande profundidade, como é o caso!
Bjs

Unknown disse...

Li e reli este poema. Escreveu com figuras literárias de grande beleza e que nos transportam nestes sonhos de crianças.

"e os poemas amadurecem
..../...
sem querer soletrar nuvens de trovões ou invernias"

OceanoAzul.Sonhos disse...

Palavras que enriquessem a alma.
Cresço, quando aqui passo...


beijinho
cecilia

AC disse...

Um outono que tende a alastrar-se na paisagem humana - mas ainda com um toque de esperança - e que a riqueza das palavras retrata de forma sublime.

Beijo :)

Agulheta disse...

Que bom,numa tarde cinzenta de outono,ler estas palavras ao som de "verdes anos" lindo sem mais adjetivos.
Beijinho

Anónimo disse...

Belíssimo! Bji

ONG ALERTA disse...

Pobres só no nome pois um poema rica de emoção...
Beijo Lisette.

marlene edir severino disse...

Mas aqui tuas palavras
intensificam

Belo, Lídia!

Beijos!

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

nem sempre as palavras são ricas...cabe ao Poeta as enriquecer...

:)