sexta-feira, 4 de outubro de 2013

E depois?


Vladimir Kush

   Fico com os nervos "em franja" quando tropeço, sem querer, na palavra amargura.  É uma palavra cheia de sílabas amargas, sempre a culparem o mundo daquele "u" assobiado, amarídeo que têm preso ao coração. 

    Não te deixes amargurar...- pediste 
    Não deixarei - prometi sem saber o quanto me custaria cumprir.

    Há dias, farta de esperar nos corredores do hospital, depois de ter lido uma [boa] dúzia de poemas de Eugénio; o jornal que estava sobre a mesinha, de ponta a ponta; depois de, em surdina, ter mandado o  Paulo Portas, na televisão, "àquela parte", com a amargura a subir-me a pique, perigosamente, no termómetro das emoções, peguei na palavra em causa, com a ponta dos dedos, cheia de repugnância, disposta a dar-lhe um caminho outro, que não o meu.
 Onde me levas, rio que cantei / esperança destes olhos que molhei / de pura solidão e desencanto / Onde me levas que me custa tanto.*

      Não vou, não vou assim, de ânimo leve... 
    Dou uma tesourada certeira na palavra amargura (de onde me veio, tão a propósito, a tesoura?)  - quatro letras para cada lado. Fico com as primeiras [amar] e deixo as outras soltas na enxurrada negra das agruras passantes.

Estou de passagem / Amo o efémero.* 

E depois?...
*Poesia (2000) Eugénio de Andrade





17 comentários:

chica disse...

Linda demais!!Adorei! Que boim passar aqui! beijos,chica

Mar Arável disse...

Belo texto

Salve-se o mar
Bj

Mari disse...

Deixa acontecer, depois vemos o que fazer.
bjs

Rogério G.V. Pereira disse...

Os poetas dão sempre tesouradas certeiras quando se trata de recuperar as más palavras...

ONG ALERTA disse...

Todos nós estamos....
Beijo Lisette.

São disse...

Em primeiro lugar , agradeço a autorização de publicar os seus poemas.

Em segundo, declaro que gostei imenso do texto e que desejo nunca ser a amargura a vencedora na sua vida.

Bom resto de sábado

Flor de Jasmim disse...

Excelente texto Lídia.

beijinho e uma flor

perhaps disse...

Pois...não há respostas que sirvam de uns a outros. Não há.

Porém, permita que duvide do amor pelo efémero. Se bem que efémeros sejamos todos e tudo que habita o planeta. Por exemplo, amamos algumas flores, amamos de amar, de ficar nelas perdida e tudo esvanecer na contemplação. E, contudo, não nos prendemos a elas, não as choramos se ou quando morrem. Por serem flores. Mas também porque nelas amamos um certa flor que voltará a nascer ou adquirimos noutra primavera a renovar o prazer. O nosso efémero tende para o seu eterno.

E com as pessoas? Não é qualitativamente igual. Pelo simples motivo de haver interacção e a reciprocidade gerar forças que em nada se comparam. Se o amor às flores não nos altera percursos o amor às pessoas, se é amor, muda-nos a vida. Por dentro. Por fora. ÀS vezes é amargo sim. Mas não em si mesmo, é amargura circunstancial. A amargura, querendo nós ou não, pertence ao naipe do que podemos sentir. Mas ela sim, é efémera. O âmago do amor é a alegria.

Nilson Barcelli disse...

A amargura é uma coisa tramada.
Mas ela é muito mais frequente nas pessoas amargas...
Lídia, minha querida amiga, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo.

Lilá(s) disse...

Ser poeta é isto: consegues tirar-me a amargura lendo-te!!!
Bjs

Anónimo disse...

Gostei, Lídia! Basta de amargura. Amar, amar - Bji

Daniel C.da Silva disse...

A citação é linda!
E, sim, a poesia ajuda nos maus momentos para aliviar, e nos bons para contemplar...
UM beijo amigo

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

confesso que também não lido muito bem com essa palavra....

gostei do que li!

Beijo

:)

Isabel disse...

E é assim mesmo que tem que ser!

Um beijo e boa semana!

Unknown disse...

Gostei do seu blog! Alrte.blogspot.pt

Manuel Veiga disse...

belíssimo exercício de subversão - notei agora que a "amargura" também se pode "amar"...

beijo

lis disse...

Fernando Pessoa bem dizia : _'não é alegria nem dor/esta dor com que me alegro',
quem se alegra na dor não sabe o que é amargura, palavrinha pesada essa_ carrega um fardo enorme...
Entro em comunhão com o texto uso a tesoura sempre que me lembrar que posso 'amar...' tão somente rs
abraços Lídia