Vladimir Kush
Fico com os nervos "em franja" quando tropeço, sem querer, na palavra amargura. É uma palavra cheia de sílabas amargas, sempre a culparem o mundo daquele "u" assobiado, amarídeo que têm preso ao coração.
Não te deixes amargurar...- pediste
Não deixarei - prometi sem saber o quanto me custaria cumprir.
Há dias, farta de esperar nos corredores do hospital, depois de ter lido uma [boa] dúzia de poemas de Eugénio; o jornal que estava sobre a mesinha, de ponta a ponta; depois de, em surdina, ter mandado o Paulo Portas, na televisão, "àquela parte", com a amargura a subir-me a pique, perigosamente, no termómetro das emoções, peguei na palavra em causa, com a ponta dos dedos, cheia de repugnância, disposta a dar-lhe um caminho outro, que não o meu.
Onde me levas, rio que cantei / esperança destes olhos que molhei / de pura solidão e desencanto / Onde me levas que me custa tanto.*
Não vou, não vou assim, de ânimo leve...
Dou uma tesourada certeira na palavra amargura (de onde me veio, tão a propósito, a tesoura?) - quatro letras para cada lado. Fico com as primeiras [amar] e deixo as outras soltas na enxurrada negra das agruras passantes.
Estou de passagem / Amo o efémero.*
E depois?...
*Poesia (2000) Eugénio de Andrade

17 comentários:
Linda demais!!Adorei! Que boim passar aqui! beijos,chica
Belo texto
Salve-se o mar
Bj
Deixa acontecer, depois vemos o que fazer.
bjs
Os poetas dão sempre tesouradas certeiras quando se trata de recuperar as más palavras...
Todos nós estamos....
Beijo Lisette.
Em primeiro lugar , agradeço a autorização de publicar os seus poemas.
Em segundo, declaro que gostei imenso do texto e que desejo nunca ser a amargura a vencedora na sua vida.
Bom resto de sábado
Excelente texto Lídia.
beijinho e uma flor
Pois...não há respostas que sirvam de uns a outros. Não há.
Porém, permita que duvide do amor pelo efémero. Se bem que efémeros sejamos todos e tudo que habita o planeta. Por exemplo, amamos algumas flores, amamos de amar, de ficar nelas perdida e tudo esvanecer na contemplação. E, contudo, não nos prendemos a elas, não as choramos se ou quando morrem. Por serem flores. Mas também porque nelas amamos um certa flor que voltará a nascer ou adquirimos noutra primavera a renovar o prazer. O nosso efémero tende para o seu eterno.
E com as pessoas? Não é qualitativamente igual. Pelo simples motivo de haver interacção e a reciprocidade gerar forças que em nada se comparam. Se o amor às flores não nos altera percursos o amor às pessoas, se é amor, muda-nos a vida. Por dentro. Por fora. ÀS vezes é amargo sim. Mas não em si mesmo, é amargura circunstancial. A amargura, querendo nós ou não, pertence ao naipe do que podemos sentir. Mas ela sim, é efémera. O âmago do amor é a alegria.
A amargura é uma coisa tramada.
Mas ela é muito mais frequente nas pessoas amargas...
Lídia, minha querida amiga, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo.
Ser poeta é isto: consegues tirar-me a amargura lendo-te!!!
Bjs
Gostei, Lídia! Basta de amargura. Amar, amar - Bji
A citação é linda!
E, sim, a poesia ajuda nos maus momentos para aliviar, e nos bons para contemplar...
UM beijo amigo
confesso que também não lido muito bem com essa palavra....
gostei do que li!
Beijo
:)
E é assim mesmo que tem que ser!
Um beijo e boa semana!
Gostei do seu blog! Alrte.blogspot.pt
belíssimo exercício de subversão - notei agora que a "amargura" também se pode "amar"...
beijo
Fernando Pessoa bem dizia : _'não é alegria nem dor/esta dor com que me alegro',
quem se alegra na dor não sabe o que é amargura, palavrinha pesada essa_ carrega um fardo enorme...
Entro em comunhão com o texto uso a tesoura sempre que me lembrar que posso 'amar...' tão somente rs
abraços Lídia
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