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«como
se todas aquelas prendas
com
o meu nome escrito
pudessem
substituir o amor que eu precisava»
André (nome fictício), 9 anos
Isto de ler mais de uma centena de contos de Natal, escritos por pessoas de todas as idades, acaba por fazer despertar a mais longínqua estrela de Natal que possa existir adormecida dentro de nós. Tendo passado por esta experiência, nos últimos dias, confesso que me sinto inundada de luzinhas a piscar, estrelas que falam, duendes travessos, renas constipadas, viagens ao Polo Norte e outras coisas desta natureza que têm o dom de me iluminar na memória os caminhos lisos da infância.
Nos últimos dias li mais de mil vezes, seguramente, a palavra “presentes”. Palavra essa que teimosamente insistia em sobrepor-se a outras de coração mais belo, sentir mais puro, amar mais verdadeiro. Contudo, esta evidência não é propriamente de estranhar, dado que a grande maioria dos textos se encaixa no escalão etário dos 8 aos 12 anos, crianças portanto, para as quais (contrariando o André), os presentes do Pai Natal são o principal da festa. Parece-vos mal?
Se assim é, é porque os adultos, (salvo raras e louváveis exceções) permitem que se diluam numa verdadeira floresta de equívocos, confusões, mentiras e (des)razões, os valores verdadeiramente valiosos, e desesperadamente tentam satisfazer todos os desejos dos seus “pequenos ditadores”, só para não se obrigarem a ensinar-lhes que não há Pai Natal que aguente tanta e tão caprichosa pedincha.
Mas, é preciso realçar que, este ano, não obstante os lugares comuns, as palavras (des)significadas e gastas pelo uso, ficou visível, nos textos recebidos, uma maior consciência social e cívica por parte de quantos quiseram participar neste desafio de escrita de que mais tarde falarei. Digo isto sem que no entanto possa esconder algumas sombras de dúvidas quanto à correspondência palavra/gesto, mas, ainda assim, continua a ser gratificante este “maravilhoso” a ressoar das folhas de papel à minha frente que vem purificar o ar que respiro.
Sabe bem perceber que, sem prejuízo da criatividade, da imaginação, do sentido estético revelado pelos participantes, em maior ou menor grau, os temas escolhidos percorrem trilhos da atualidade, abordando as grandes questões que presentemente afetam e perturbam o mundo, a Europa, o país, cada um de nós. Temas que vão desde o terrorismo, o êxodo dos refugiados, a multiculturalidade, o respeito pela diferença, até ao desemprego, emigração, pobreza, solidão, velhice, passando pelo bullying e até pela violência doméstica.
Há contos que, tocados pela magia, transformam o “SÓEU” em “TUTAMBÉM”, juntam famílias dividas, encontram tetos para quem os procura e lugares à mesa para os meninos sem pais, para os idosos solitários… Há os que ajudam o Pai Natal na luta contra a bruxa má que não gosta de ver crianças felizes ou contra o tempo, (coisa preciosa para o Pai Natal, a quem “os pozinhos mágicos” vão faltando). Há outros que encontram no espaço de uma biblioteca a casa que não têm e em cada livro um bilhete carimbado com destino ao “Mundo dos Sonhos” onde não há fome nem sede, frio nem calor, doença nem sofrimento. Onde a Paz existe e é branca e voa…voa…voa.
Também eu fui presenteada com um desses bilhetes carimbados que me possibilitou viajar nestas centenas de páginas. Numas ri, noutras entristeci, questionei-me e inventei respostas [erradas, talvez] em algumas. Não me foi possível conter a lágrima de comoção nesta ou naquela, quedei-me quieta bebendo a música de um violino da rua, escutando a voz de um velho lendo em voz alta para ninguém, assistindo sem nada poder fazer à demora da criança, em frente da montra da pastelaria.
Em todas estas páginas o reflexo de tempos em transformação, confusos, difíceis, ansiando por respostas que se ajustem às perguntas novas que todos os dias surgem, num desafio constante à nossa capacidade individual e coletiva de adaptação à mudança [inevitável].
Que a Estrelinha do Natal, de que tantos falam nos abra os caminhos do Conhecimento que nos levam à conquista da Paz.
Feliz Natal!

4 comentários:
Feliz Natal! Que a estrela esteja sempre presente, que nos ilumine e nos conduza pelo caminho do conhecimento, da paz...
Bjos
Tudo pelo melhor
Bjs
Li-te com toda a atenção e fui capaz de te imaginar a ler esses contos das crianças com toda a sensibilidade... De certeza que ficaste mais rica... O Natal é um tempo de muitas contradições. As crianças também se apercebem disso. Apesar da inocência...
Desejo-te um Natal cheio de conforto e um Ano Novo com muita Saúde, Paz e Amor.
Um beijo.
beijo, minha amiga
Feliz Natal.
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