Foto minha (tlm.)
Do Correntes d’Escritas, hoje, haveria muito a contar.
Podia “armar-me” em repórter e dizer que é um encontro de livros cheios de pessoas dentro ou um encontro de pessoas densamente habitadas por livros;
que o espanhol Javier Cercas é o grande vencedor do Prémio Casino da Póvoa com a obra As leis da fronteira;
que fiquei dececionada quando percebi que Eduardo Lourenço não estaria presente (conforme o anunciado) na mesa moderada por José Carlos de Vasconcelos que juntou Antônio Torres, Hélia Correia, Manuel Alegre em torno do tema “A Literatura é a catarse da existência”;
que gosto do ar que se respira, da inexplicável cumplicidade que, em corrente, se transmite de uns aos outros, fazendo com que a comunicação flua livremente;
que gosto de trocar opiniões sobre o que se está a passar com a pessoa que se sentou a meu lado, como se fosse um velho amigo, ainda que nunca antes nos tivéssemos visto;
que gosto de ver pessoas que não me conhecem, mas que de algum modo, me são próximas porque escreveram livros que eu li;
que gosto de perceber que, como eu, há tantos interessados em compreender melhor os tempos que vivemos e em que medida podemos transformá-los no sentido de dar maior sentido à existência, à nossa passagem pelo mundo e resposta à já velha questão: afinal o que faço eu aqui?;
que José Tolentino Mendonça fez uma belíssima Conferência de Abertura – “O Silêncio dos Livros” - de que destaco as seguintes passagens (apenas uma pequenina parte do texto apresentado) que identifiquei de imediato como parte integrante do seu livro A Mística do Instante – O tempo e a promessa” (2014) onde fui agora buscar de empréstimo:
[…]
As rotinas têm um efeito saudável:
tornando o quotidiano um encadeado de situações expectáveis, permitem-nos
habitar com confiança o tempo. Mas o que começa por ser bom esconde também um
perigo. De repente, a rotina substitui-se à própria vida. Quando tudo se torna
óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. Cada dia é simplesmente
igual ao anterior. A nossa viagem passa para as mãos de um piloto automático,
que só tem de aplicar, do modo mais maquinal que for capaz, as regras
previamente estabelecidas. Os sentidos adormecem. Bem podem os dias ser novos a
cada manhã ou o instante abrir-se como um limiar inédito, que nunca os
cruzaremos assim. Os nossos olhos sonolentos veem tudo como repetido. E, sem
nos darmos conta, acontece-nos o que o salmo bíblico descreve a propósito dos
ídolos: «Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não veem./ Têm ouvidos, mas
não ouvem; narizes têm, mas não cheiram./ Têm mãos, mas não palpam» (SI
115,5-7).
[…]
A rotina não basta ao coração do
homem. O grande desafio é, em cada dia, voltar a olhar tudo pela primeira vez,
deslumbrando-se com a surpresa dos dias. É reconhecer que este instante que
passa é a porta por onde entra a alegria. Mas para isso teremos de recuperar a
sensibilidade à vida, à sua desconcertante simplicidade, ao seu canto frágil,
às suas travessias. A vida que nos havíamos habituado já a consumir no
relâmpago que dura um fósforo, sem ouvi-la verdadeiramente, sem conspirar para
a sua plenitude. Para responder à pergunta sobre o sentido que a dada altura
nos assalta («a vida que levo que sentido tem?») é indispensável uma pedagogia
de reativação dos sentidos.

4 comentários:
Lídia, fico sempre com vontade de também estar no Correntes d' Escrita, mas acabo sempre por não poder ir.
Gostei muito do excerto do Tolentino. Belo e cheio de significado. Obrigada pela partilha. Bj
excelente repórter...
beijo
Gente bonita
a que habita o livro
e lhe enche as páginas de escrita
Quanto à rotina, tenho-a
sobretudo pela manhã
o levantar, a janela
que eu e ela
observa a rotina
de quem se obriga a sair à hora certa
Depois é a rotina de ler
o que os jornais dizem estar a acontecer
Dois cafés, quase seguidos
sorvidos
a ferver
A tarde e a noite
é feita de intervenção
(há pouco tempo para a contemplação)
Revi-me nas palavras do Tolentino.
Grato pela partilha, Lídia.
Uma boa semana :)
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