Leio no computador (não
gosto de ler no computador) um ensaio que me interessa, hoje, só hoje,
centrado na temática do impressionismo na Literatura. É um texto longo com
inúmeras referências e citações contraditórias a que não faltam as irritantes
notas de rodapé que mais parecem campainhas determinadas a estilhaçar a
concentração de “inocentes” leitores, como eu. Disperso-me exatamente no
momento em que leio:
A arte impressionista limita-se a representar a impressão do pintor, isto é, o efeito mais ou menos pronunciado que a acção dos objectos exteriores produz sobre os órgãos dos sentidos, é a sua visão particular que o artista vai representar na tela e não o que ele sabe ser das coisas, o que a sua formação lhe ensinou.
[…]
A escolha do escritor não pode ser absolutamente livre, pois está condicionada pelo preceituário, pelo gramaticalismo, pelo espírito da língua e "o mínimo de sentido necessário que o criador deve pôr em sua expressão para que esta seja inteligível." (Castagnino). É necessário aliar gramaticalidade e inteligibilidade, isto é, dentro do conceito saussureano de língua como facto social, deve permitir a comunicação.
Bem, se eu não soubesse
que esta imagem indiscreta, refletida aqui no lado esquerdo do ecrã é um Laurus Nobilis, vulgo loureiro; se eu não soubesse que estes
esquissos vagamente oscilante, de contornos difusos, amorfismo que decorre, por
certo, do efeito ilusório do jogo de vidros e luz produzido na ampla janela,
nas minhas costas; se eu não soubesse nada disto, como diria a sensação de
estar a ver o que vejo, neste preciso momento, para além da página aberta que
acaba de me empurrar como quem varre um leitor imprudente para a parte detrás
de si própria?
Quiçá deste modo
imperfeito:
No espaço das
sensações, ao fundo, o fumo sem forma das formas recortadas num azul difundido.
Azul?! De onde te vem essa sensação visual de ser azul, o azul? Quem te instruiu
abusivamente no conceito de azul?
A velocidade vertiginosa das imagens, o emaranhado de formas rente ao irreal, de tão planas, fugindo e logo voltando para lamber da tua memória as migalhas do inteligível… E tu vês e ouves e cheiras e saboreias e sentes e nada sabes do ser que cada coisa é.
Finalmente, livre! E contudo, devastador o vazio que essa liberdade te infunde.
Repara: estás agora suspensa numa dessas imagens anónimas voláteis e sofres de náuseas, tonturas a cada onda do vento como se soubesses alguma coisa do impacto de um corpo a resvalar em compressão e distensão para o abismo, como se soubesses do abismo, configurações, famas ou profundidades.
A velocidade vertiginosa das imagens, o emaranhado de formas rente ao irreal, de tão planas, fugindo e logo voltando para lamber da tua memória as migalhas do inteligível… E tu vês e ouves e cheiras e saboreias e sentes e nada sabes do ser que cada coisa é.
Finalmente, livre! E contudo, devastador o vazio que essa liberdade te infunde.
Repara: estás agora suspensa numa dessas imagens anónimas voláteis e sofres de náuseas, tonturas a cada onda do vento como se soubesses alguma coisa do impacto de um corpo a resvalar em compressão e distensão para o abismo, como se soubesses do abismo, configurações, famas ou profundidades.
Desligo o computador.
Saio para a rua.
Está um dia maravilhoso fora dos ensaios do Impressionismo!
Está um dia maravilhoso fora dos ensaios do Impressionismo!
A relva aparada do jardim público, a frescura verde do odor espalhado no ar...
- Boa tarde, senhora!
- Boa tarde, senhor… Como se chamará o jardineiro? Hei de perguntar-lhe.

1 comentário:
:)
Sentiu-se, por aqui, o respirar de alívio no jardim...
Gostei de ler, Lídia.
Um beijinho :)
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