quarta-feira, 1 de junho de 2016

A ti, Criança



Hoje é o teu dia.

Sei que muitas palavras, vestidas de domingo, virão inundar a praça pública, que os teus direitos serão nomeados, um a um, leis que o mundo reconhece, impolutas, em Declarações Universais, Tratados, Acordos que, em silêncio, jazem no fundo das gavetas do Poder, nos dias que não são o teu dia. Haverá quem te ofereça balões e gelados e presentes, haverá quem te ofereça guerra e fome, haverá a indiferença, haverá a dor, a mágoa de te sabermos indefesa perante a hipocrisia e a mesquinhez dos homens.


Ao acordar achei que devia escrever-te um poema. Mas… sabes? Fugiram-me as palavras de que mais gosto: flores, borboletas, ervas verdes, céus azuis, sorrisos e olhares inocentes que são os teus sobre as coisas do mundo. E assim… Não posso escrever-te esse poema, hoje! Perdoa.

Ainda há pouco tentaram explicar-me a razão da tua pobreza, da tua riqueza, com palavras de retórica, fáceis, histórias contadas mil vezes, repetidas até à exaustão, até que se façam verdades absolutas. E depois perguntaram-me se tinha percebido. E eu não tinha percebido nada. Tenho sérias dificuldades em perceber as coisas pela metade. Só o inteiro me interessa. Só a inteireza me seduz. Tentaram explicar-me que os impostos que pagam não eram para “esbanjar” em escolas públicas "de luxo”. Não, eu não percebi. Sabes, Criança, eu queria que os impostos que (também) eu pago fossem para “esbanjar” em escolas públicas "de luxo", isto é, com condições dignas para todos. E não para dar aos bancos e assim… percebes?


Um dia, hei de escrever esse poema de que te falo. Será o dia em que sairão à rua mulheres e homens empunhando cartazes onde já não se lê “PELO MEU FILHO”, mas sim “POR TODOS OS FILHOS/CRIANÇAS DE TODOS NÓS”. Será o dia em que aprenderemos, uns com os outros, a MERECER-TE.


Se eu morrer sem o fazer, não te aflijas. Muitos outros, levantarão dignamente a bandeira colorida da Justiça em teu nome, CRIANÇA, para que o Poema então se cumpra.






Lídia Borges/ Olívia Marques/ Eu




3 comentários:

chica disse...

Maravilhosa e bem inspirada homenagem,! beijos, tudo de bom,chica

Majo Dutra disse...

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Uma homenagem excelente, Lídia.
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Rogério G.V. Pereira disse...

Curioso texto
Curioso e adequado
Curioso, porque, de certo modo, ele é uma outra forma de dizer o que eu próprio escolhi para ser dito.
Adequado, porque se a alma é a mãe de todos os versos, é da cinzenta razão que nos saem a palavras necessárias.

Hoje, não há interregnos para coisas belas!