quinta-feira, 16 de junho de 2016

David Mourão-Ferreira

 David Mourão-Ferreira (24/02/1937 - 16/06/1996
 "PARAÍSO"           

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
 
 David Mourão-Ferreira, 
in "Infinito Pessoal" (1959-1962)
 
 

6 comentários:

Maria Rodrigues disse...

Lindo poema, uma excelente escolha, gosto muito de ler David Mourão Ferreira.
Beijinhos
Maria

Graça Sampaio disse...

Que bem escrevia! E já se passaram 20 anos...

lis disse...

David Mourão_ sempre que leio descubro algo novo e necessário.
Excelente partilha, Lídia
um abraço

Ibel disse...

Este soneto de amor desliza com tal suavidade, com tal beleza construída com metáforas inusitadas que relê-se com encantamento. E espanto! O espanto que tem de provocar a poesia. como dizia Rimbaut.


Sonetos destes venham muitos.

Maria Isabel

Benó disse...

Quem melhor que um poeta para nos falar de amor?

Benó disse...

Quem melhor que um poeta para nos falar de amor?