quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Político

Marc Chagall, Pluie (1911)
A partir de O Último Poeta 
de Paulo Morais


de olhar curvilíneo e emblema patente
na lapela do casaco.
subiu ao palanque
e de boca retorcida,
e voz cavernosa parecendo vir do fundo do mar
vociferou:

fica decretado que no Reino do (in)Sensitivo
as palavras “Sensibilidade” e “Arte”
serão substituídas em todos os dicionários
pelas palavras “racionalidade” e “produção”.

todos aqueles (poetas ou não)
que ousarem afrontar a lei,
pronunciando-as… pensando-as…
ou...  sentindo-as
passarão a habitar a ilha-degredo.
aí submetidos, a um programa
de deseducação
aprenderão a não se iludir com flores
e outras perturbações analógicas como:
alma,
montanha,
poema,
mar
homem infinito
e outras inutilidades
adversas ao bem-estar…

cuspiu um “tenho dito” peremptório
sem esclarecer a quem pertencia
aquele “bem-estar” flutuante.


Lídia Borges (21/02/2016)


1 comentário:

Graça Sampaio disse...

Gosto especialmente do «emblema na lapela»... bela ironia, Lídia!