Creio já o ter dito aqui, um livro novo que me chega às mãos e inicia-se espontaneamente um
ritual de aproximação que passa pela visão, pelo tato, pelo olfato. Já a
entrega que se segue requer maior empenho da audição e da alma. Da audição, na medida em que
os textos estão povoados de vozes, e da alma, porque escutar implica tomar consciência, despertar a sensibilidade.
Perguntar-se-ão, os mais
atentos, que livro é este que seguro nas mãos. Na verdade, não se trata
propriamente de um livro, mas de uma revista literária da qual “saiu” recentemente
o n.º 3.
Falo da delphica / letras &
artes.
Como imagem de capa, este número sugere-nos um fragmento de Seestück,
pintura de Gerhald Richter (1970), o que, só por si, deixa antever o requinte próprio de quem não se permite deixar nada ao acaso. Cumprindo os critérios
de elevado rigor estético, (não apenas no domínio do visual como também no que respeita a conteúdos), já verificados nos números anteriores, assistimos nestas
220 páginas a um desfile de boas leituras que vão da Poesia, passando pela Ficção, Teatro, Ensaios, Entrevistas até às Crónicas,
desfile que prima pela qualidade, pelo saber dizer, pelo saber fazer. Uma marca a que vamos
ficando habituados.
Para o comprovar
bastará uma breve passagem de olhos pelo “elenco” da ficha técnica. Ou por algumas
linhas colhidas ao acaso, se acasos existem nesta "coisa" das letras e das artes:
Não sei onde vou, caminho pela terra do exílio, espécie de
pária nas brumas do verbo, como um adjectivo que tivesse perdido o fio do substantivo;
avanço na solidão do humano até às margens desconhecidas da arte de acostar,
como um peixe harpoado de angústia que apesar de tudo continuasse a nadar, apesar
de tudo.
[…] Gostaria bem de ser o algures de um cavalo que relincha
no meio do mar na nuvem de um outro; como um corpúsculo de homem sem liames,
avanço no delírio de uma manhã que não delira de algures; avanço para um barco
que não virá, como um viajante que esperasse as esperas no cais do amor em
desespero de causa. Sou a fealdade que se esconde na beleza de uma noite de
verão e esvazia um sonho como se esvazia uma noz à aproximação da fome.
[…]
Christophe Corp, (p.147)
«Duas Folhas de Hortelã e Três Rendas de Urtiga»
***
Sopra, musa, delicada,
Diz, desatinada,
O que vens dizer assim,
Sem erros, devagar,
Devagarinho, sem gritar,
Não vá o vaso quebrar.
Epígrafe de Jorge
Fazenda Lourenço, utilizada por Teresa Carvalho no artigo que assina intitulado - «musas/medusas/desmusas», divindades sem as quais, aos poetas, nada era dado como certo. Outros tempos!
Pena que se faça tão rogada esta “Senhora”
Delphica, saindo à rua tão raramente e de modo tão discreto. Para a encontrar
talvez só pedindo diretamente para a “Crescente Branco” (contacto disponível na
ficha técnica). Eu tenho a sorte de ter por amigo o poeta, dramaturgo, ensaísta Vergílio Alberto Vieira, a quem devo uma palavra de gratidão por tantas e tão belas páginas que generosamente me vai fazendo chegar.
A propósito, junte à encomenda
este livro - Todo o Trabalho, Toda a Obra
- o verso de Camões que dá título ao belíssimo volume que reúne a Poesia de
Vergílio Alberto Vieira. Não se arrependerá.


1 comentário:
Em Dezembro de 2013, quando anunciavas a saída, lembro o ,eu comentário:
«Lançar uma revista, assim, é acto de fé nos tempos que correm... "delphica" faz lembrar Sophia e se juntar o que transcreve juro ir ser leitor.»
Faltei até este momento ao juramento... corri tudo sem encontrar a revista. Talvez agora, depois dessa promissora prova de vida.
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