quarta-feira, 8 de junho de 2016

Eu não sou de falar mal

Imagem google s/ind. autoria
  
 Quantos faço?!... Nasci em 24. Faça vossemecê as contas que até lhe faz bem à cabecinha. Foi muita vida, muita vida! E que vida!...

 Calou-se por momentos a rondar a memória.

 Ele, sabe menina, o meu home era um bêbado. Um bêbado e um mulherengo… 
A ela perdoei-lhe. Perdoei-lhe, sabe? Coitada, ajudou-me a criar os filhos. Eu tinha de ir trabalhar, lavar a roupa das senhoras ao rio. De verão e muitas vezes no inverno, a água até aos joelhos. Cada baciada!... Desde os onze anos, a lavar no rio. Ia com a minha mãezinha e ajudava como podia para o pão da boca. Tinha de ser que a vida dantes não era este forrobodó d’agora.

Nova pausa… breve!


Os meus bisnetos! Dez anos e até motas têm, veja lá você! São os pais. Uns cabeças no ar. Ganham bem, gastam. Eu bem lhes digo - olhem que a vida dá muitas voltas, dá muitas voltas… Não ligam.

A ela perdoei-lhe. Enfim ajudou-me a criar os filhos.



No salão de cabeleireiro já só eu a ouvia. As senhoras, mais ou menos enjoadas, mais ou menos condescendentes, desviavam os olhos para a televisão, enfiavam-nos nas revistas cor-de-rosa ou no ecrã do telemóvel.
Presa nos sulcos fundos daquele rosto miudinho, nos já raros cabelinhos brancos nos rolos para fazer o penteado, eu permanecia atenta.

Querem levar-me “fora” os meus filhos. Faço anos!

Encolhia os ombros mirrados.
São uns teimosos. Eu ficava tão bem em casa! Cozia uma batata, uma couve…


O pai deles morreu com o fígado desfeito… A ele não lhe perdoei. Bem, nem sei se lhe perdoei ou não. Quem perdoa é o Senhor. Mas se perdoei, foi muito contrariada!  



Riu, olhando-me sem constrangimento. Ri com ela, sem constrangimento!



Então, chego a casa, moídinha do trabalho, e dou com eles na minha cama! Peguei no cadeirão (não sei a minha força), e abri-lhe a cabeça. A ele. A ela não. Perdoei-lhe. Coitada, olhava pelos meus filhos enquanto eu não chegava do trabalho. Era minha vizinha, amiga dos meus meninos. Ele, ele não queria saber dos filhos. Ganhava bom dinheiro. Era um bom artista, um bom sapateiro, isto em novo, sabe menina? Um bom sapateiro...



Falava agora só para mim e só eu a ouvia.

Fazia sapatos só para gente da ”alta” em Braga. Ele era médicos, advogados e até padres… E fazia calçado para aleijados, sabe menina? Com aquelas cunhas altas, para os coxos, sabe? Botas de caça e tudo! Era um artista de categoria. Ganhava bom dinheiro, mas quê? Gastava tudo em vinho e putas, (c’oa sua licença, menina, que eu não sou de falar mal.)

Olhou o espelho. Os caracóis quase prontos.


A ela nunca mais a vi e ele foi para a Alemanha. Continuou o mesmo. Num só ano correu quatro fábricas. Despediam-no sempre. Pudera… Era um bêbado!

Um dia, apareci lá com os meninos sem ele contar. O meu cunhado que tinha vindo de férias, Deus o tenha, levou-nos, a ver se ele ganhava juízo. Nunca ganhou... Tudo sujo, uma miséria… Os lençóis imundos. Abre, ó pernas para que vos quero. Tinha um dinheirinho para os bilhetes, o meu e o dos meninos. Enquanto não me vi em casa não sosseguei. Voltei às limpezas, ao jornal, quando havia trabalho nos campos. Não podia contar com ele.


Voltou a calar-se, abstraída. Os olhinhos mais escondidos entre as rugas…

Não despeguei meus olhos dela. Parecia crescer, tão grande, aquela mulher de 92 anos metida num corpo tão acanhado. Apetecia abraçá-la.


Bater, nunca me bateu. Eu não deixava, não deixava…

Depois, tantos anos passados, os filhos criados, apareceu-me à porta. Velho, a barba grande, magro como um cão… Tive pena dele. Trazia uns míseros sessenta contos na carteira.

E tu abriste-lhe a porta? – perguntavam-me – Gozou como um “preto” e vem agora com a doença à mostra para tu o tratares? Ó mulher, ou és douda ou santa – diziam-me.
Tive pena dele, sabe menina. Tive pena...



A ela, perdoei-lhe. Eu tinha de ir trabalhar. Ficava-me com os meninos. Perdoei-lhe. A ele... nem sei, nem sei! 
Ele a cair de bêbado e eu a falar baixinho, para não assustar os meninos, compreende menina? Não queria que eles soubessem como era o pai, o que eu sofria. Escondia.
Não queria que soubessem que o pai não se importava com eles.
Não sei se lhe perdoei... Quem perdoa é o Senhor. Não sei se o Senhor lhe perdoou. Ele p'ra lá está...


[…]





 - Feliz Aniversário, minha senhora!

- Ora essa! Minha senhora?!... Sou a Zininha, menina. Sou a Zininha!...





Lídia Borges

1 comentário:

Rogério G.V. Pereira disse...



Não perca esse abraço
se a voltar a encontrar em qualquer lado