sábado, 6 de agosto de 2016

Eu Lídia declaro


para que conste eu, Lídia, declaro
que nunca juntos nos sentámos
puros inocentes e pagãos
nas margens de um rio triste
a enlaçar e a desenlaçar as mãos.

mais declaro que o poema onde o poeta me prendeu
nunca me convenceu: ouvir e ver a água a passar sem sonhos para navegar...
crer só por querer que tudo é nada...
como não ficar desconfiada?

posta ali serenamente, as flores caídas no regaço
parada breve ausente,  à espera do barqueiro
sem um gesto contra a corrente.
o Letes para percorrer e nada levar da vida  
para em seu leito esquecer.

eu, Lídia, aqui declaro que vale a pena correr
como a água, de rocha em rocha
cair, cantar,  mil mortes sofrer
e de todas elas, renascer...

digo que vale a pena ser
passar da palavra aos atos.
Lídias e Ofélias, no silêncio dos retratos
deusas, musas entre lírios e camélias 
são mudas e surdas e cegas. tão belas!
pobres delas! 


condenadas à má sorte 
de perfumarem poemas onde se oculta 
a morte.



imagem (pesquisa google s/ ind. autoria)

3 comentários:

Joaquim do Carmo disse...

Como não podia deixar de ser, belo e encantador poema, Lídia!
Beijo

Rogério G.V. Pereira disse...

Aceite a declaração.
Por outras e de mais testemunhos,
analisados os factos
encerrem-se o autos
e anule-se a pena.

O Juiz

Branca disse...

Não me ocorre comentário suficientemente justo para esta mensagem poética construída nos meandros de uma alma tão expontâneamente artística e sábia.
Até doi de tão belo!

Beijos