quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Margens de um mesmo rio




Respirávamos melhor quando a palavra vento abria
as portas da nossa casa e a palavra criança
irrompia trazendo o sol a saltitar nas mãos
para que não tivéssemos frio.
Havia palavras como desejo, brisa, navio
que desenhavam rotas entre o teu e o meu corpo,
margens de um mesmo rio.

Ouvi dizer que as palavras envelhecem
que algumas adoecem gravemente
e podem mesmo morrer.

Ah, que farei se a palavra mãe, a palavra ninho
a palavra terra e outras palavras com raiz
envelhecerem no meu canto, no meu peito, no meu país?




Lídia Borges (2015: p.59), Baile de Cítaras, Poética Edições
 
(imagem:Michal Lukasiewicz)

1 comentário:

Rogério G.V. Pereira disse...

Não ligues, Poeta
a tudo o que oiças dizer
as palavras são eternas
nós é que as fazemos morrer

Dizem que ressuscitam
sempre,
quando acontece um poema