segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Nada



pintura: óleo sobre tela (em execução)


Há domingos onde não há domingo.
Num pestanejar fogem-nos as horas e quando reparamos já é segunda-feira.  Tudo o que é de acontecer parece ter fugido descaradamente sem que tenha acontecido. Como no poema de Mário Quintana – Quando se vê já são seis horas / quando se vê … já passaram 50 anos / agora é tarde de mais para ser reprovado.  
Pensei todo o dia em Nada. Não é fácil pensar em Nada, mas há quem pense muito em Nada. Até mesmo pessoas cansadas de passar com distinção em todos os exames, têm domingos em que pensam seriamente em Nada.
São pessoas que se estão nas tintas para a distinção que as distingue. Medalhas de mérito enferrujadas, dentro de caixas de lata, também elas enferrujadas, guardadas em gavetas indistintas. Essas pessoas podem passar descalças pelo domingo como pelas brasas sem se queimarem. Elas sabem que as coisas, as pessoas e os sentimentos mudam e, embora seja triste ou estranho ou doloroso que as coisas, as pessoas e os sentimentos mudem, elas sabem como fazer para que a essa mudança não corresponda uma monumental deceção. Elas aprenderam a “deixar ir”. “Deixar ir” pode ser igual a passar com distinção num exame de psicologia racional ou, para não ir tão longe, de bom senso.
Ontem deixei ir o domingo sem lhe falar sequer. Estive tão ocupada a pensar em Nada!
À segunda-feira tudo é mais real. À segunda-feira é que os pensamentos desidratados vão a demolhar e se revelam mais líquidos e maleáveis. Torna-se então quase impraticável o pensar em Nada.



1 comentário:

Rogério G.V. Pereira disse...

Há vidas em que os calendários deixam de contar. Todos os dias podem ser dias de pensar em Nada ou embarcar em pensamentos sólidos, prontos a demolhar. Para essas, trata-se de uma opção diária, tomada a seguir ao comprimido para o equilibro da tensão arterial. Desde que entreguei a minha declaração de fim da actividade numa repartição de finanças perto de mim que sou confrontado com uma vida assim.
Todos os dias, quando acordo, opto.
Em redor olho e cada vez mais tenho a sensação de serem poucos a seguirem a minha opção. A maioria opta por "deixar ir".
Por vezes, à noite, chego a pensar se não seria melhor "deixar andar"... mudo de ideias ao acordar, sem esperança de que me venha calhar a medalha por recusa a pensar em Nada(embora reconheça que a mereça).

[excelente este seu texto e que bem encaminhado vai esse seu quadro]