segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Boda




As festas de família são sempre momentos de alegria, partilha e bem-estar que muito prezo. Desta vez foi um dos “nossos” jovens que quis dar o nó, afirmando que afinal a tradição ainda é o que era. A capela onde a noiva foi batizada (baptizada, ao tempo), lá para São Martinho de Aldoar, decorada a rigor, os violinos, o canto lírico, a apoteótica entrada da noiva pelo braço do pai, (ao som de Gabriel’s Oboe Ennio Morricone), que a entrega junto do altar ao noivo emocionado. Tanta compenetração começa a perder a graça quando o velho pároco com voz arrastada e modo um tanto entediado, dá início ao “discurso” já gasto de que a mulher foi criada para completar o homem, e tal e tal… -  Maria, apercebeu-se que não havia vinho naquele casamento em Caná, na Galileia. Foi Maria, mãe de Jesus, quem se apercebeu… -  Reparem – dizia o abade bonacheirão - como não podia deixar de ser, foi uma mulher… tinha de ser uma mulher a reparar que o vinho acabava. Só podia ter sido uma mulher porque Jesus estava ocupado com outras coisas, outros pensamentos, pensamentos mais elevados. Jesus não podia ter reparado na falta do vinho. E quando Maria lhe diz -  Não têm vinho - ele responde - Mulher que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora. Todavia o milagre da transformação acontece, porque havia uma mulher atenta às pequenas coisas, uma mulher consciente das suas características femininas […]  Mesmo que o homem por vezes tenha uma resposta que parece menos simpática, a mulher deve []
Foi aí que "desliguei". Reparei na expressão divertida dos amigos dos noivos, (deles e delas) e não pude deixar de observar, cá com os meus botões, como é fácil transformar, não a água em vinho, não senhor, mas a mãe em esposa, a esposa em mãe… A mulher em muleta de coxos.
Felizmente a cantora começava a entoar (magistralmente) o Ave Maria de Schubert e senti-me, de novo, apaziguada.

É caso para dizer - Ainda bem que a tradição já não é o que era!




1 comentário:

Graça Pires disse...

Descreves tudo tão bem, Lídia. Gosto tanto de te ler.
Uma boa semana.
Beijos.