olha a chuva e chora
chora e olha a chuva!
parece uma madalena...
I
achei poético e triste.
triste porque eu era o sujeito do “poema”.
a poeta, a professora de ciências da natureza,
toda ela composta por quartzo, feldspato e mica,
[muito “mica”*]
de cor indefinida, olhar de mármore
e voz xistosa.
e voz xistosa.
apanhou-me desprevenida.
deu-me uma negativa redonda
na primeira pergunta sobre “rochas”
e sonegou-me o direito às seguintes.
chorei do alto da hidrofobia dos meus treze anos
inconformada com tanta chuva contida
naquela [pequena] injustiça.
II
chove tanto, hoje,
estão tão lavadas as pedras do pátio
que sou capaz de distinguir a olho nu
os tipos de minerais que as compõem,
a sua dureza, cor, textura…
pudesse a chuva assim lavar o mundo.
pelo processo da recristalização
clarear o que escureceu
na alma dos homens com vocação
de rocha.
*mica - regionalismo insultuoso no seu significado vulgar, mas eu uso-o com a benevolência com que era aplicado no meu meio. "Mica" era uma espécie de cabrita irrequieta; aquele/a que fazia "macaquices".

3 comentários:
Excelente!!!
Era realmente tão bom que a chuva conseguisse limpar o lado negro da vida.
Beijinhos
Maria
Fantástico poema, minha Amiga Lídia!
Estou contigo nesse desejo de que a chuva lavasse os males do mundo...
Uma boa semana.
Beijos.
O texto muito belo a desafiar os limites da poesia/prosa.
bj
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