quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Escalas





olha a chuva e chora

chora e olha a chuva!

parece uma madalena...


  
I
achei poético e triste.
triste porque eu era o sujeito do “poema”.
a poeta, a professora de ciências da natureza,
toda ela composta por quartzo, feldspato e mica,
[muito “mica”*]
de cor indefinida, olhar de mármore
e voz xistosa.
apanhou-me desprevenida.
deu-me uma negativa redonda
na primeira pergunta sobre “rochas”
e sonegou-me o direito às seguintes.

chorei do alto da hidrofobia dos meus treze anos
inconformada com tanta chuva contida
naquela [pequena] injustiça.


II
chove tanto, hoje,
estão tão lavadas as pedras do pátio
que sou capaz de distinguir a olho nu
os tipos de minerais que as compõem,
a sua dureza, cor, textura…

pudesse a chuva assim lavar o mundo.
pelo processo da recristalização
clarear o que escureceu
na alma dos homens com vocação
de rocha.



*mica - regionalismo insultuoso no seu significado vulgar, mas eu uso-o com a benevolência com que era aplicado no meu meio. "Mica" era uma espécie de cabrita irrequieta; aquele/a que fazia "macaquices".


3 comentários:

Maria Rodrigues disse...

Excelente!!!
Era realmente tão bom que a chuva conseguisse limpar o lado negro da vida.
Beijinhos
Maria

Graça Pires disse...

Fantástico poema, minha Amiga Lídia!
Estou contigo nesse desejo de que a chuva lavasse os males do mundo...
Uma boa semana.
Beijos.

Armando Sena disse...

O texto muito belo a desafiar os limites da poesia/prosa.
bj