Antigamente,
fique lá onde ficar o antigamente, o Natal era mais pequeno. Dois dias eram o
suficiente para a vivência da quadra. Começava a 24, pela manhã com a chegada da cesta do musgo e do pinheiro,
quando os cheiros quentes da cozinha, atravessavam já as divisões da casa,
juntamente com o barulhar das louças, a saírem dos armários. Uma azáfama que
dava conta da proximidade da festa, uma festa de família. Feliz mas sem euforias, em
tudo contida, exceto talvez na alegria dos mais novos.
Havia
aqueles pratos grandes, com flores coloridas, (de levar à mesa em vez das travessas), só usados no Natal que, segundo a avó tinham
pertencido a uma família antiga de gigantes. De como vieram parar ao seu guarda-loiça
é que ela não nos dava conta. Num só desses pratos, cabiam as batatas e o
bacalhau para toda a família e ainda sobrava comida. Desta constatação é que nós, os
mais pequenos, ficámos a saber quanto um gigante é capaz de emborcar numa só
refeição. Impressionante, se comparado com as mínimas tigelas de sopa que satisfazem um
anão.
Voltando
atrás, (após esta deriva por mundos imaginários, ou talvez não), enquanto se
montava o presépio, quase sempre com o pai a comandar as hostes, já as pinhas pegadiças
assavam, acrescentando um novo odor aos odores espalhados pelo ar. Este
último de difícil definição era entre nós conhecido por “cheiro a Natal”, simplesmente.
Custava extrair das escamas chamuscadas das pinhas os pinhões mais tímidos, mas sem eles
não haveria ao serão, o jogo do par ou pernão, brincadeira que
envolvia toda a família, despertando exclamações de riso ou de desagrado, se o
rapa, tratava de nos “rapar” a nossa quota-parte dos pequenos frutos.
Junto do presépio cheirava a
resina e a musgo; era como se um pedaço do "monte", tivesse entrado em casa e a tornasse parte de si. A hera rutilava por trás da cabaninha do Menino
Jesus, abraçando-a e protegendo-a assim de hipotéticas derrocadas.
Eram de curta duração, esses natais primeiros,
como dizia. Talvez por isso mesmo, imbuídos de uma áurea tão verdadeira que arrancava aos corações simples os mais nobres sentimentos.
Talvez
deva reformular aqui, o “curta duração” e salientar a grandeza desses
natais “pequenos” que se aninhavam em nós até se tornarem carne e sangue na memória e na alma. A prova disso é que estou aqui, ainda, a décadas de distância, recordando-os como vivência presente.
***
Hoje,
para gáudio de alguns, aqueles que transformam o Natal num gigantesco
centro comercial, onde
a família, (feliz), agoniza em distraída dispersão, (porque será que me lembrei de repente de “A Caverna” de Saramago?), o Natal dura, dura, dura… Mas,
contrariamente, ao algodão, engana. Aberto o último embrulho, a noite esmorece, tão deserta de sonhos como outra qualquer. Até o próprio Menino Jesus se dispensa de sair das palhinhas para levar
um presentinho às meninas e aos meninos bem-comportados. Afinal, os outros, os mal-comportados, também recebem os mesmos, quando não melhores presentes, segundo a lei sem lei do pai natal. Ser bem-comportado deixou de compensar. E o sapatinho, para que serve? Estão a ver... Há muito, a família de gigantes
desapareceu e o pai natal nem tenta colocar tanta quinquilharia em sapatos de
gente pequena. É que não levam quase nada!
***
Há
dias, eu que até já tinha pensado comprar uns perfumezitos para oferecer, descobri
que há dentro do meu televisor um “espírito de natal” travesso e muito
empreendedor que se dedica a içar, de uma bonita caixa, o frasquinho de perfume nela contido e a depositar, em seu lugar, um telemóvel, (última geração), para arrancar,
com isto, um sorriso [estúpido] ao rosto enjoado da rapariga, a quem se destina
o presente.
Ah,
este “espírito de natal” ensandeceu de vez e nem com o perfume "pescado" consegue disfarçar o cheiro a
plástico.
***
Ainda
não "fizemos" a nossa árvore, no canto da sala, nem colocámos na porta de entrada uma
coroa de boas-vindas.
“É
cedo”, dizemos de nós para nós, à procura de um Natal dos antigos, por nos parecerem esses mais autênticos.

3 comentários:
Bem podia subscrever este texto, Lídia. Eram assim os meus natais em Sintra (anos 60) e, antes disso, em Algés (anos 50). E que bem sabiam! Agora é tudo um enorme (maior) fingimento, um enorme centro de compras e de vendas. Enfim: sinais dos tempos...
Beijinho
Este bonito texto de memórias lembra-me os natais da minha infância, em que as prendas,modestas, eram deixadas nos sapatinhos.
Obrigada, Lídia, por esta partilha.
Beijinhos e votos de boa semana.
Lídia:
Voltei literalmente à infância com este seu texto, e gostei de lá estar.
Quase esqueci o cheiro "a plástico" que anda por aqui.
Um beijinho grato por esta partilha.
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