segunda-feira, 19 de dezembro de 2016


        Hoje, no Mosteiro de Tibães, em Braga, a apresentação do livro Inquietação no Olhar, de Álvaro de Oliveira e Adias Machado. Uma obra que conjuga em si poesia e pintura em íntimo diálogo e que tive o prazer e a honra de prefaciar. 
       Hoje estive ao lado dos autores para dar a conhecer a minha interpretação deste trabalho:

Para os que tiverem paciência de ler, deixo um excerto do prefácio que assino:


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Nesse momento, o Álvaro de Oliveira teve, desde logo, o ensejo de esclarecer que não se tratava de um livro de poesia ilustrado nem, tampouco, de um conjunto de telas legendadas, mas antes, de um encontro entre duas artes que dialogam entre si. Uma informação relevante, sem dúvida. Ora, é à luz dessa ideia que o presente trabalho deve ser encarado. Uma ideia também defendida por Jacques Aumont, na sua l’Esthetique au Présent (1998), ao afirmar que - a Arte é cada vez mais híbrida, no efeito sensorial, mista nas técnicas, ecléctica na fonte de inspiração, sincrética nas temáticas abordadas.

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 O cotejo entre literatura e pintura não é novo. Proposições entre estas duas artes são esboçadas desde a Antiguidade. Observe-se por exemplo o simile - Ut picture poesis  (como a pintura é a poesia), expressão latina usada por Horácio na sua Arte Poética, (c 20 a.C.). Também Plutarco menciona esta afinidade ao atribuir ao poeta Simónides de Ceos o dito, segundo o qual - a pintura é poesia calada; a poesia pintura que fala.
Mas interessa-nos por agora salvaguardar as impressões do visível e do dizível que a obra que temos em mãos pode imprimir no espírito do leitor/observador.
Assim, o conjunto de sonetos aqui apresentado por Álvaro de Oliveira respeita as escolhas temáticas que são recorrentes na obra do autor, de onde o humano sobressai, na sua relação transcendente com a Natureza sem que o “desajuste” com o mundo e com as coisas do mundo, deixe de se constituir inquietude, procura e até, em alguns momentos, desencanto. 
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Um olhar poético sem deixar de ser crítico, intercetado pela lupa da sensibilidade e da profunda devoção à escrita. A Poesia surge aqui como último reduto, lugar onde o poeta aporta para lhe prestar homenagem em sinal de reverência e gratidão. 
[...]



 A figura humana salienta-se desta pintura, trazendo à superfície a Inquietação do Olhar, através da expressão dos rostos, dos olhos em interrogação e procura do bem-estar a que só a Natureza parece dar resposta. Esta assume um espaço considerável na obra do artista, onde plantas de ramos ondulados e longos, flores, folhas, pássaros, peixes são presença constante a rodear homens e mulheres. Imagens que se transcendem em estados de euforia (retratados, por exemplo, através do vinho, um símbolo da alegria, por excelência), contrastam com outras onde é notória a tristeza “atravessada por um arco” – O arco da palavra ou fingimento?
[...] 

Lídia Borges





1 comentário:

Ibel disse...

Um texto maduro, sábio, meticulosamente pensado e detalhado na análise.
São quase três da manhã e deliciei-me, agora, a lê-lo, ouvido que foi.
A arte da escrita, crítica, ou literária recupera as nossas maiores perdas na vida, que são sempre a morte ou o afastamento do Bem.
E que bem, Lídia!