sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Mitologia






A deriva que sou, no rumo em que me desvendo

Confesso que para mim os terríveis monstros mitológicos há muito perderam a graça. Hidra nunca lavou os dentes; o Minotauro de Cnossos claudicou no circuito sinuoso do labirinto; a górgona de olhar mortal empederniu-se e seu cabelo de serpentes já não serpenteia ao vento; as sereias sessaram o pranto à míngua de heróis marinheiros; os centauros adulteraram a sua nobre missão de observadores de estrelas; os poetas… Bem, os poetas continuam a tropeçar nas palavras trôpegos de utopias. Todos eles, não apenas os poetas, são seres que não assustam ninguém, até porque morrer simbolicamente não é, por certo, tão definitivo como morrer efetivamente.
O que na verdade me assusta é esse tipo de criaturas sem poderes sobrenaturais dotados apenas de armas projetadas para disparar repetidamente, a partir de cinturões de cartuchos carregados de ódio condensado. Quando querem destruir cidades inteiras usam bombas e misseis de alta precisão que são o orgulho da tecnologia de combate. Se não fosse dramático, teria até piada a palavra “combate” aplicada neste cenário em que um clica num botão para bombardear, e o outro, civil desarmado, morre.
Imagino, sem poder evitar um severo mal-estar, os “combatentes” vitoriosos no regresso a casa, beijando a família, calçando as pantufas, adormecendo no sofá como anjos, cumprido que foi, mais um dia no n(p)obre ofício de matar.

Aqui me detenho em espanto. Tanto que me amedronta esta criatura de uma só cabeça, sem asas nem corpo dividido entre a besta e o humano, dois olhos acesos, mãos mortíferas e coração de ferro…

Felizmente que há dentro desta mesma espécie, uma subespécie designada por "os de coração puro" que vão plantando flores nos desertos, acendendo estrelas no escuro... São esses os meus heróis de sempre, esses nunca saberão trair porque não conhecem a cor nem a forma da traição e nem essa é a sua natureza.

 ***


E dizem os "inteligentes":
Os de coração puro são uns simplórios que andam para aí, coitados, sempre a falar de paz como se isso fosse coisa de existir e não são nada transgressores, nem vanguardistas nem criativos nem espertos e têm a mania de cansar as pessoas com as suas ideiazinhas azuuuuis e irritantes. 




1 comentário:

Jaime Portela disse...

Plantar flores não é mau... mas não chega, pelo menos nos tempos que correm...
Excelente texto, gostei imenso.
Já há muito tempo que aqui não vinha, mas gostei do que tens feito por aqui.
Um bom fim de semana e um FELIZ NATAL , querida amiga Lídia.
Beijo.