domingo, 22 de janeiro de 2017

Arte Poética



Coloca o fato de proteção
o capacete, as barbatanas,
o tubo e o bocal
para continuares a respirar
quando mergulhado no mar
conturbado da linguagem.

Verás à entrada do poema,
um lirismo extasiado na voz do vento
roçando velas e mastros
em desvario.

Não te esqueças:
deves chamar ao barco, sonho,
crina, ao vento,
ave, ao coração
se o teu nasceu para voar.
Recolhe tudo o que te espanta
na gestação dos dedos.

Rompe a aridez das palavras
demasiado concretas. Despe-as devagar,
deixa que se signifiquem amplamente.
Dá-lhes a beber umas gotas de loucura,
e de ternura, uma mão bem cheia.
Toda a sede é distância
na porta entreaberta do poema.

Deixa que se escrevam por si, as palavras
na pele branca de uma folha de papel,
ébrias de tanta sobriedade.
 



4 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...


fica a dúvida
se o desenho te ilustra
ou se foi ele inspirado
pelo poema, tão belo



Graça Sampaio disse...

Que bem despe (e volta a vestir) as palavras! Muito lindo! Muito lindo, mesmo!

Graça Pires disse...

"Toda a sede é distância
na porta entreaberta do poema."
Magnífico poema, Lídia!
Uma boa semana.
Beijos.

Maria Rodrigues disse...

E depois das palavras esvoaçarem no coração da poetisa, elas pousaram na folha e formaram este belíssimo poema.
Beijinhos
Maria