domingo, 5 de março de 2017

Boa seria a literatura




Má literatura é plantar versos nos canteiros do pátio
como se o pátio fosse o mundo.
Pudesse a porta da sala dar acesso direto ao vento
em vez de dar acesso ao pátio.
Soubessem as mãos ainda desbravar
o trilho das papoilas, das urzes, do trigo…
E nos verbos inventar o rasgo que faz cintilar
a água fresca de velhos poemas.
Transbordantes. O mundo a revelar-se
em cada esquina, em cada face, em cada ferida
em cada flor, em cada sorriso.
Dessem acesso ao mundo
todas as portas de todos os pátios,

Boa seria a literatura. Já o mundo...
Só o deserto dos campos, dos bosques, dos corações
me é nítido. De olhos abertos, pesa muito um deserto.

Cruzá-lo apenas para te ver chegar.
E sobre dunas edificar
um pequeníssimo rio,
correndo sereno da garganta para o mar.





3 comentários:

Graça Pires disse...

Há quem diga que a poesia é ouvir no silêncio e ver na escuridão. A boa literatura diz-nos que o que acontece dentro dela é também o que acontece dentro de nós... O teu poema diz-me que a Poesia se faz com grandes poetas como tu.
Uma boa semana.
Beijo grande.

Rogério G.V. Pereira disse...

"Soubessem as mãos ainda desbravar"

Tens mãos sábias
Sabias?

Obras & Autores disse...

Fossem, Lídia, "os canteiros do pátio" a pequeníssima luz de um acorde que agora oiço saído da guitarra de Filomena Moretti e o vento seria a voz da poesia no interior dos bosques. E não é?
Do Álvaro