quinta-feira, 20 de abril de 2017
Parque
I
a minha cidade tem um parque.
no parque da minha cidade há um lago,
a água do lago absorve e conserva
todo o negrume das noites
e por causa disso secam os coaxares das rãs
nas margens;
as árvores [raras] não conseguem
aproximar a luz à brandura do musgo.
no parque da minha cidade há uma fonte,
pedra estéril e silenciosa sem memória
do rumorejar das águas
e das nossas bocas em tardes quentes de verão.
II
a minha cidade tinha um parque
no parque da minha cidade havia um lago
e nas margens do lago mil coaxares alegres de rãs.
enormes, as árvores filtravam a luz cuidadosamente
até que se aproximasse à brandura do musgo
e tudo em redor se tingia de verde-sombra.
o parque da minha cidade era verde-sombra
como aos teus olhos, os meus.
havia uma fonte a compor continuamente trovas d'água
e as tuas mãos em concha para eu levar à boca
nas tardes quentes de verão.
III
amanhã no espaço do parque vai nascer
uma nova superfície comercial, cheia de gente a comprar
água engarrafada, luz verde-sombra em pacotes
[leve dois, pague um...]
pilhas para as rãs coaxarem alegremente
no lago artificial ao pé da fonte em policloreto de vinilo
que fará os encantos de miúdos e graúdos.
nem uns nem outros hão de reparar que a sombra, só sombra
desprovida de qualquer pigmento natural.
e nós, se não ausência, tão precisados dela.
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1 comentário:
Triste ver parques transformados em comércio, shoppings...Pena! bjs, chica
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