Hoje conheci
um poeta. Não sei se poeta à força, se não. Ficou a dúvida.
Entrou atrasado, olhos sonolentos, cabelos compridos
em desalinho como as ondas do mar, fosse o mar negro. Bom dia! –
disse em voz sumida – peço desculpa pelo atraso. Ficámos presos no trânsito…
Sentou-se. Percebeu depressa que se falava de poesia.
Levantou o dedo a pedir a palavra – Eu escrevo poemas, todos os dias
escrevo poemas…
Tendo terminado a tarefa proposta, para a sessão de
hoje, antes dos demais, sugeri-lhe que escrevesse um poema. Por momentos
pareceu-me confuso, hesitante: - os meus poemas são sobre a minha vida, o que tenho
no coração... não sei se… - Muito bem, escreve então.
À saída, demorou-se o bastante para que a sala ficasse
vazia. Queria dar-me o poema; a folha dobrada em quatro, na sua mão. Sem que lho pedisse, ajudou-me
a arrumar. - De onde és? Não foi preciso perguntar muito mais. - Moro na Trofa há pouco tempo, mas nasci em Braga. Todos
os meus amigos estão aqui e a minha mãe também trabalha cá. – Cá, na biblioteca? – Não, na cidade. E como agora não há aulas, tenho de vir com ela, todos
os dias.
Fui percebendo que passa o tempo na biblioteca; está
inscrito em todas as atividades propostas para crianças. Gostou da de hoje, mas não gostou de ter chegado
atrasado…
- Ontem, à tarde, foi Filosofia e Ciência – comentou - adorei! Mal cheguei a casa fiz uma experiência e consegui ver
o coração de um bicho-de-conta. Perante as minhas interrogações (desconchavadas,
obviamente), garantiu-me que o bichinho continua alegre e de boa saúde, mas não
soube contar-me se, sendo o bicho-de-conta um crustáceo como o camarão, tem como este, o coração
na cabeça. Certo, certo é que o “bicho-de-conta” do meu poema, que tinha acabado
de ser lido, não sabe contar.
Coincidências, pois claro!
Despedimo-nos, o espaço já deserto de crianças. Ainda
lhe perguntei o que faria a seguir. Baixou os olhos, encolheu os ombros. - Vou
ler qualquer coisa, à tarde vai haver “Brincar na Filosofia”. Vai ser fixe! E
depois, espero pela minha mãe. - E o almoço? – Eu trouxe.
Antes de sair entregou-me a folha dobrada – é só uma
quadra!
Desdobrei-a:
“A minha
vida é muito boa
Tenho no
coração uma flor
Estou em
construção
Não sinto
nenhuma dor.”
Sentir, sinta quem (vê) lê.
E como sinto!
(imagem google s/ ind. autoria)

5 comentários:
Que lindo ler isso e a quadra dele um amor! Tão bom ver crianças escrevendo e lendo assim! bjs, chica
Esse "puto"
podia ser eu
mesmo não tendo nascido em Braga
nem na Trofa tenha tido morada
O que dizer perante este sentir, esta maravilha!
Há corações que são asas de amor e flor.
Um beijinho
O Toque do coração
Há seres com essa faculdade, que sentem o caminho a trilhar. Por mais que as nuvens tinjam o horizonte.
Obrigado, Lídia, por esta partilha, tecida em modo de sentir.
Um geniozinho... Maravilha...
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