sexta-feira, 7 de abril de 2017

"Pescadores de Palavras" - Escrita Criativa (dos 8 aos 12)




                 
                  Hoje conheci um poeta. Não sei se poeta à força, se não. Ficou a dúvida.
        Entrou atrasado, olhos sonolentos, cabelos compridos em desalinho como as ondas do mar, fosse o mar negro. Bom dia! – disse em voz sumida – peço desculpa pelo atraso. Ficámos presos no trânsito…
Sentou-se. Percebeu depressa que se falava de poesia. Levantou o dedo a pedir a palavra – Eu escrevo poemas, todos os dias escrevo poemas…
Tendo terminado a tarefa proposta, para a sessão de hoje, antes dos demais, sugeri-lhe que escrevesse um poema. Por momentos pareceu-me confuso, hesitante: - os meus poemas são sobre a minha vida, o que tenho no coração... não sei se… - Muito bem, escreve então.
À saída, demorou-se o bastante para que a sala ficasse vazia. Queria dar-me o poema; a folha dobrada em quatro, na sua mão. Sem que lho pedisse, ajudou-me a arrumar. - De onde és? Não foi preciso perguntar muito mais. - Moro na Trofa há pouco tempo, mas nasci em Braga. Todos os meus amigos estão aqui e a minha mãe também trabalha cá. – Cá, na biblioteca? – Não, na cidade. E como agora não há aulas, tenho de vir com ela, todos os dias.
Fui percebendo que passa o tempo na biblioteca; está inscrito em todas as atividades propostas para crianças. Gostou da de hoje, mas não gostou de ter chegado atrasado…
- Ontem, à tarde, foi Filosofia e Ciência – comentou - adorei! Mal cheguei a casa fiz uma experiência e consegui ver o coração de um bicho-de-conta. Perante as minhas interrogações (desconchavadas, obviamente), garantiu-me que o bichinho continua alegre e de boa saúde, mas não soube contar-me se, sendo o bicho-de-conta um crustáceo como o camarão, tem como este, o coração na cabeça. Certo, certo é que o “bicho-de-conta” do meu poema, que tinha acabado de ser lido, não sabe contar. Coincidências, pois claro!
Despedimo-nos, o espaço já deserto de crianças. Ainda lhe perguntei o que faria a seguir. Baixou os olhos, encolheu os ombros. - Vou ler qualquer coisa, à tarde vai haver “Brincar na Filosofia”. Vai ser fixe! E depois, espero pela minha mãe. - E o almoço? – Eu trouxe.

Antes de sair entregou-me a folha dobrada – é só uma quadra! 
Desdobrei-a:

“A minha vida é muito boa
Tenho no coração uma flor
Estou em construção
Não sinto nenhuma dor.”

Sentir, sinta quem (vê).

E como sinto!


(imagem google s/ ind. autoria)

5 comentários:

chica disse...

Que lindo ler isso e a quadra dele um amor! Tão bom ver crianças escrevendo e lendo assim! bjs, chica

Rogério G.V. Pereira disse...

Esse "puto"
podia ser eu
mesmo não tendo nascido em Braga
nem na Trofa tenha tido morada

Fê blue bird disse...

O que dizer perante este sentir, esta maravilha!
Há corações que são asas de amor e flor.

Um beijinho

O Toque do coração

AC disse...

Há seres com essa faculdade, que sentem o caminho a trilhar. Por mais que as nuvens tinjam o horizonte.
Obrigado, Lídia, por esta partilha, tecida em modo de sentir.

Graça Sampaio disse...

Um geniozinho... Maravilha...