sexta-feira, 5 de maio de 2017

A horas tardias

Daniel Gerhartz


tenho o hábito de frequentar
poemas a horas tardias
quando estes estão mais perto de ser
música ou vidro.
às vezes digo para comigo
que a música e o vidro são feitos
de matéria muito frágil
igual às flores que me morrem
não raramente nos braços.
tenho o hábito de frequentar
poemas a horas tardias
quando estes estão mais perto de ser
música ou vidro
raramente, botões de rosa
agora que tantos perecem em meu peito
sem que nenhum deles tenha
atingido a súbita alegria de ser flor.
uma flor no teu olhar refletida.
tudo o que nesses poemas se lê, eu vejo, eu meço
e permaneço e penso. penso e não sinto, 
sinto
o requiem de Mozart
mais intenso que nunca
a intrometer-se lancinante
no murmúrio surdo
que trespassa o coração do poema

onde tudo vive e tudo me dói.




4 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Joaquim do Carmo disse...

... mas cada dia, não importa a hora, algum se transforma em mais uma linda flor! E... não importa a hora, haverá sempre alguém ansioso por dar-lhe regaço!
Beijinho

Fê blue bird disse...

Um poema profundamente tocante. Frágil também, porque é feito de dor.

Um beijinho comovido
O Toque do coração

Graça Pires disse...

Visitar o poema a horas tardias e deixar que ele seja música, dor, júbilo ou simplesmente as palavras escritas do poeta...
Magnífico, Lídia!
Um beijo.