sexta-feira, 26 de maio de 2017

Passagens


(Gianni Strino)


andava distante
abusando da pouca poesia.
a cada instante
em limos verdes se vertia
e deixava passar em branco
aves de saudade e beijos de colibri
como sonhos deixados
ao abandono por ali. remendava a dor
com as últimas estrelas
da última constelação
e deitava-se na sombra
de um rasto que fora trovão.


andava distante
sem encontrar sorriso que se visse
ou verbo que lhe acudisse
remendava a voz aqui e ali
com descontinuados brados
povoados de insetos quietos
de pernas para o ar
impedidos do ato de voar.


e dobrava os rios que tinha inventado
com os peixes dentro
e as algas as cachoeiras os seixos…
e depois de tudo desconsertado
catados os espinhos da água
descerrava um molho de nuvens
e com modos hábeis
desenhava no peito
uma abertura para o deserto.

abastece agora a solidão
raiz do canto no canto da boca
no seio do coração.




1 comentário:

Maria Rodrigues disse...

Belissimo poema.
Bom fim de semana
Beijinhos
Maria