Daniel Gerhartz
as horas entornam-se
vagarosamente para o outono
e é na minha pele, na minha alma, que as
horas
se entornam vagarosamente
para o outono.
a nostalgia das folhas
que, em súbita agonia,
se desprendem do verão é a minha
nostalgia,
a desolação das vinhas
apartadas dos cachos,
as árvores órfãs de frutos
e ninhos,
os aromas doces de tão
maduros,
intensos de tão nossos,
são o meu sentimento
mais puro.
quero escrever e não
posso.
esgalharam a magnólia
vertiginosamente
indiferentes ao seu
desespero ainda verde.
a luz sobre o tampo da
mesa onde escrevo, cresceu
mas é uma luz
alambre, sem asas nem cantos.
que páginas sobreviverão
ao declínio
dos pássaros e seus concertos matinais?
dos pássaros e seus concertos matinais?
do restolhar dos ramos em permanentes
conversas?
da cera levemente nacarada das
flores?
todas as horas são de
fim de tarde
agora que os relógios enlouquecem
na ondulação assimétrica
de luz e sombra.
é esta a minha estação, continuamente:
a mesma fluidez do ar, líquido
a mesma água indulgente a correr pelos
veios da voz
o mesmo sol escasso a
embalar brios e desordens
o mesmo silêncio arreigado
de nuvem
sempre à beira de chover.

2 comentários:
Um magnífico poema que nos anuncia o Outono: o pretexto da chuva em nossos olhos.
Um beijo, minha querida Amiga.
O entardecer vai chegando de mansinho à natureza e a nós.
Belíssimo poema
Boa semana
Beijinhos
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco
Enviar um comentário