domingo, 17 de setembro de 2017

fim de tarde




Daniel Gerhartz



as horas entornam-se vagarosamente para o outono
e é na minha pele, na minha alma, que as horas
se entornam vagarosamente para o outono.
a nostalgia das folhas que, em súbita agonia,
se desprendem do verão é a minha nostalgia,
a desolação das vinhas apartadas dos cachos,
as árvores órfãs de frutos e ninhos,
os aromas doces de tão maduros,
intensos de tão nossos, são o meu sentimento
mais puro.

quero escrever e não posso.
esgalharam a magnólia vertiginosamente
indiferentes ao seu desespero ainda verde.
a luz sobre o tampo da mesa onde escrevo, cresceu
mas é uma luz alambre, sem asas nem cantos.
que páginas sobreviverão ao declínio
dos pássaros e seus concertos matinais?
do restolhar dos ramos em permanentes conversas?
da cera levemente nacarada  das flores?

todas as horas são de fim de tarde
agora que os relógios enlouquecem
na ondulação assimétrica de luz e sombra.
é esta a minha estação, continuamente:
a mesma fluidez do ar, líquido
a mesma água indulgente a correr pelos veios da voz
o mesmo sol escasso a embalar brios e desordens
o mesmo silêncio arreigado de nuvem

sempre à beira de chover.








2 comentários:

Graça Pires disse...

Um magnífico poema que nos anuncia o Outono: o pretexto da chuva em nossos olhos.
Um beijo, minha querida Amiga.

Maria Rodrigues disse...

O entardecer vai chegando de mansinho à natureza e a nós.
Belíssimo poema
Boa semana
Beijinhos
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco