segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Domingo (a quente)




Era uma parede rubra asfixiante e movediça que subia, por detrás das casas, até ao céu. Debaixo de uma sensação de incapacidade aflitiva face ao que acontecia, observava-lhe os avanços, media distâncias, tirava-lhe as coordenadas… Liguei, uma vez mais, para saber como estavam, pois parecia-me, pela orientação tomada pelo monstro que seria pior, um pouco mais acima, a uns 3 km daqui, da minha casa, na direção de Santa Marta da Falperra, onde mora meu irmão.
- Um inferno!... Ouves este barulho ensurdecedor? Não é o mar. É o fogo em fúria. Está a menos de 500 metros, devora tudo …  - E os miúdos? Saiam, saiam depressa daí, por favor… – A Sandra já levou as crianças e a cadela. Estão em segurança. Eu estou com os vizinhos e muitos amigos. Estamos a fazer o que podemos. Não há bombeiros, ainda…


As lágrimas saltam, de novo, só de escrever isto. Queimam.
Senti que o meu corpo tremia, apesar do calor. O rosto do medo iluminava-se à minha frente e eu fazia por ignorar a ardência nos olhos, a dificuldade no respirar.
Hoje vejo nas notícias a desgraça e a dor de tantas famílias por este país fora, desamparado país e, no meio de tão funda tristeza, privilegiada é como me vejo, pois não perdi nenhum elemento da minha família.
Foi ontem, domingo. A tarde e, com maior intensidade, o princípio da noite foram de grande ansiedade e aflição em toda esta área sul de Braga, onde habito. O fogo descontrolado tentou inclusive forçar a entrada na cidade, o que vem fragilizar (no mínimo) a arquitetura dos argumentos com que muitos tentam explicar o “fenómeno” dos incêndios: a seca,  a desertificação, a falta de limpeza das florestas, as alterações climatéricas e outros argumentos deste teor,  muito válidos, sim senhor, mas só parcialmente “explicativos”, pois que excluem aspetos que me parecem fundamentais em toda esta calamidade, este cenário dantesco que nos persegue, todos os anos no verão, estação que agora teima em se estender no tempo. Refiro-me, por um lado, à inação, incapacidade, incompetência ou “distração”, (chamem-lhe o que quiserem), dos responsáveis, em toda a linha e, por outro lado, a uma outra questão basilar na observação disto tudo que é esta:  o combate aéreo de incêndios depende de empresas, cujo negócio só é rentável se existirem incêndios, logo, os incêndios são a matéria prima da “produção” destas empresas. Sem matéria prima não há obra e sem obra não há negócios. Então… (complete, segundo a sua lógica, por favor.) Verá que, visto isto, é preciso que o Estado tenha os seus próprios meios de combate. (Talvez vendendo uns submarinos, ao preço de custo, consiga uma verba significativa ou mesmo a verba necessária para se auto-defender.)
Outros “interessados” haverá, com certeza, mais "apetrechados" que os bêbados e os tolos, de que tanto nos falam. Meliantes embuçados, “espertos” sem escrúpulos dominados pela soberba e pela ganância que proliferam por aí.  


Urge inventar, seja lá onde for, seja lá como for, um PONTO FINAL para esta monstruosidade que, políticos e políticas de todas as cores e formas, têm ignorado, tolerado, consentido e até protegido. O Estado não pode simplesmente assobiar para o lado, entre lamentos, lágrimas e breves lutos para aliviar a má consciência, quando é o depositário (imposto) dos nossos impostos (gordos, para tão parcos salários e pensões). Não lhe fica nada bem, na hora do retorno, legitimamente esperado, na parte que lhe compete cumprir que é a proteção e o bem-estar das pessoas, nas diversas áreas sociais, ficar-se por avaliações, avaliações das avaliações, relatórios e mais relatórios que vão parar, todos eles, mais cedo ou mais tarde, ao arquivo morto de um qualquer gabinete, algures, lá p’ra Lisboa.

É pouco! 


(foto: pesquisa google - Braga)


  

2 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Nunca uma situação complexa
foi explicada por uma única causa
embora se perfile uma só origem
e mais do que um crime

(imagino o pânico)

Maria Rodrigues disse...

Lidia quanta dor, desespero e destruição, urge sim, o Estado tomar uma atitude que elimine os interesses financeiros fundamentados nos incêndios, enquanto houver "gentinha" a ganhar com os fogos esta situação vai infelizmente continuar.
Felizmente que está tudo bem consigo e com a sua família, as imagens que temos visto na televisão são aterradoras, nem consigo imaginar o terror e aflição de quem vive e viveu de perto esta tão grande calamidade.
Que Deus a todos proteja.
Um beijinho
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco