Ricardo Cejudo Nogales ( Espanha, 1952) óleo sobre tela
Ficámos
aqui, hoje. Lemos um pouco, outro pouco, conversámos. Podaste o filodendro à
entrada da garagem; fizemos o doce de abóbora com nozes; foste até à varanda... se
eu fosse poeta, diria que vogavas nas ondas do fumo, mas nem eu sou poeta nem
tu fumas, logo, terei de dizer que vogavas, talvez, nas ondas da espera. O domingo
tem sempre um estranho ar de “amanhã”, como se fosse crime o tempo ocioso de ser e estar, hoje.
Desabituamo-nos ao estar por estar, simplesmente. Somos, ao domingo, formas imperfeitas e
apressadas do verbo passar.
Vi no Netflix
o black mirror. Nunca vês as “minhas”
séries, os "meus" filmes. A realidade é para ti uma rua ensolarada sem esquinas.
Compreendes ou julgas compreender todas as ficções desta nova modernidade. Tu dizes que
sou a única realidade incompreensível, para ti. Eu não entendo nada da linearidade
com que designas todas as coisas. Eu dependo da ficção. Só através dela me é
permitido tocar muito ao de leve a orla da realidade. Tu és para mim a única ficção
incompreensível ou julgo que o és.
Tomámos chá,
lá fora, nos velhos cadeirões de verga, quase barcos… ia jurar que, dos cadeirões
do pátio, se pode ver o mar. Uma névoa verdeal e húmida, muito ao longe ou tão
perto que se prende aos olhos, se os fechamos. [Nossos barcos de almofadas floridas à deriva, à deriva nos meus brevíssimos sonhos...]
E assim, o domingo
esgota-se rapidamente na lentidão absorta das horas.

3 comentários:
Texto lindo, sobre esse domingo
A seu propósito, em tempo ido,dissertei sobre o tema...
Um texto a dizer-me que és uma escritora de mão cheia...
Um beijo, minha Amiga.
Gosto de sentir o domingo a esgotar-se lentamente.
Belissimo texto.
Beijinhos
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco
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