segunda-feira, 9 de outubro de 2017

domingo



 Ricardo Cejudo Nogales ( Espanha, 1952) óleo sobre tela

Ficámos aqui, hoje. Lemos um pouco, outro pouco, conversámos. Podaste o filodendro à entrada da garagem; fizemos o doce de abóbora com nozes; foste até à varanda... se eu fosse poeta, diria que vogavas nas ondas do fumo, mas nem eu sou poeta nem tu fumas, logo, terei de dizer que vogavas, talvez, nas ondas da espera. O domingo tem sempre um estranho ar de “amanhã”, como se fosse crime o tempo ocioso de ser e estar, hoje. Desabituamo-nos ao estar por estar, simplesmente. Somos, ao domingo, formas imperfeitas e apressadas do verbo passar.
Vi no Netflix o black mirror. Nunca vês as “minhas” séries, os "meus" filmes. A realidade é para ti uma rua ensolarada sem esquinas. Compreendes ou julgas compreender todas as ficções desta nova modernidade. Tu dizes que sou a única realidade incompreensível, para ti. Eu não entendo nada da linearidade com que designas todas as coisas. Eu dependo da ficção. Só através dela me é permitido tocar muito ao de leve a orla da realidade. Tu és para mim a única ficção incompreensível ou julgo que o és.
 Tomámos chá, lá fora, nos velhos cadeirões de verga, quase barcos… ia jurar que, dos cadeirões do pátio, se pode ver o mar. Uma névoa verdeal e húmida, muito ao longe ou tão perto que se prende aos olhos, se os fechamos. [Nossos barcos de almofadas floridas à deriva, à deriva nos meus brevíssimos sonhos...]
E assim, o domingo esgota-se rapidamente na lentidão absorta das horas. 




3 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

Texto lindo, sobre esse domingo

A seu propósito, em tempo ido,dissertei sobre o tema...

Graça Pires disse...

Um texto a dizer-me que és uma escritora de mão cheia...
Um beijo, minha Amiga.

Maria Rodrigues disse...

Gosto de sentir o domingo a esgotar-se lentamente.
Belissimo texto.
Beijinhos
Maria de
Divagar Sobre Tudo um Pouco