Carlos Vega
I
primeiro
sabia até as cores do canto
dos pássaros.
não acreditas?
era fácil saber as cores do canto
dos pássaros
no tempo em que não
existia diferença
na fala das espécies, à
face da terra.
ouvia as conversas das
heras
seguia o rasto do caracol
no muro
e adivinhava os segredos da
sua solidão
pelas marcas deixadas nas
pedras...
tudo era possível
porque os nomes das coisas
eram apenas o que queria chamar às coisas.
as palavras estavam em
fase de delírio inicial
e desconheciam tudo sobre
metamorfoses.
II
depois
vieram os dicionários. sumptuosos, imponentes.
iam
matando a poesia
com a mania das arrumações,
seriações, significações,
sentidos, aceções tudo
convertido
às convenções
convencionais.
iam matando a poesia...
felizmente que alguém se
lembrou a tempo
da existência de crianças
e loucos e poetas
estes últimos, aspirantes a
loucos
[ainda em estado de
fingimento] mas...
alguns deles já eminentes
desconjugadores de verbos,
subjugadores de adjetivos
e domadores
dos mais ferozes advérbios.
quanto aos nomes. não sei
bem…
mas parece que trouxeram
da infância,
à revelia das leis, algumas sementes desnascidas
que colocam cuidadosamente
ao relento em
noites de lua cheia
para que germinem.
vivem com uma ave plantada no peito
sempre à beira de florir
dizem que só salvando a poesia,
se salvarão. e cantam, cantam
mesmo quando choram.
se salvarão. e cantam, cantam
mesmo quando choram.

2 comentários:
Que lindo!!! Tão bem observado, Lídia!! Que lindo! Parabéns!
Sabes?
Enquanto houver poetas
e palavras-semente
a poesia sobreviverá
sempre
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