terça-feira, 10 de outubro de 2017

iam matando a poesia


 Carlos Vega

I
primeiro
sabia até as cores do canto dos pássaros.
não acreditas?
era fácil saber as cores do canto dos pássaros
no tempo em que não existia diferença
na fala das espécies, à face da terra.
ouvia as conversas das heras
seguia o rasto do caracol no muro
e adivinhava os segredos da sua solidão
pelas marcas deixadas nas pedras...
tudo era possível
porque os nomes das coisas
eram apenas o que queria chamar às coisas.
as palavras estavam em fase de delírio inicial
e desconheciam tudo sobre metamorfoses.


II
depois
vieram os dicionários. sumptuosos, imponentes.
iam matando a poesia
com a mania das arrumações, seriações, significações,
sentidos, aceções tudo convertido
às convenções convencionais. 
iam matando a poesia...
felizmente que alguém se lembrou a tempo
da existência de crianças e loucos e poetas
estes últimos, aspirantes a loucos
[ainda em estado de fingimento] mas...
alguns deles já eminentes 
desconjugadores de verbos,
subjugadores de adjetivos e domadores
dos mais ferozes advérbios.
quanto aos nomes. não sei bem…
mas parece que trouxeram da infância,
à revelia das leis, algumas sementes desnascidas
que colocam cuidadosamente
ao relento em noites de lua cheia
para que germinem.

vivem com uma ave plantada no peito
sempre à beira de florir
dizem que só salvando a poesia,
se salvarão. e cantam, cantam
mesmo quando choram.






2 comentários:

Graça Sampaio disse...

Que lindo!!! Tão bem observado, Lídia!! Que lindo! Parabéns!

Rogério G.V. Pereira disse...

Sabes?
Enquanto houver poetas
e palavras-semente
a poesia sobreviverá
sempre