quinta-feira, 30 de novembro de 2017
"Paixões Desvairadas"
"A caneta" / excerto
Lembra-se bem que a caneta escrevia a cena como quem afagava delambida a textura doce daquela pele que os seus olhos degustavam com inesperado e guloso deleite. E a tinta compunha um rasto de carícias no impróprio papel. Caneta tonta! Deslizava em momices românticas, como pena suave no bafejo tépido duma brisa. Eram beijos delico-doces num contínuo de paixão.
"A Caneta" é um dos dez contos do novo livro de Pinto de Matos, o autor minhoto que faz da segunda metade do século passado, o tempo privilegiado dos seus enredos literários, (romance e conto) e do Minho (rural) o espaço de ação das personagens. Personagens-tipo (simbolizando grupos), que os portugueses em geral e os nortenhos em particular, conhecem bem.
A partir do "desenho" de cada uma dessas personagens, somos confrontados com um retrato sociológico, político e cultural, realista, de uma época marcada pela pobreza, pelo analfabetismo, pela guerra colonial, pelo domínio da Igreja, reguladora da "moral e dos bons costumes" junto das populações, ligada ao Estado e conivente com as suas políticas ditatoriais.
As paixões "desvairadas" dão o mote. Relações amorosas, enviesadas, (quase sempre), são escritas por uma caneta "tonta" que abre caminho aos apaixonados, para que, subjugados pelo desejo, se deixem vogar ao sabor das circunstâncias, arredados da razão e do dever, o que vem pôr a nu muitos dos vícios (intemporais, esses), do ser humano: traição, ciúme, hipocrisia, frouxidão de carácter, inveja, vingança... Os desfechos são consentâneos com os comportamentos, o que quer dizer, utilizando uma fórmula hiper codificada: "e [não] foram felizes para sempre".
Não deixarei de referir, pois terei a cargo a apresentação desta obra, (em breve), o olhar redutor, espelho do tempo (textual e real), sobre a Mulher, toldado por uma mentalidade interesseira que o pretende justificar (e perpetuar), deformada por séculos e séculos de má escola: Eva, a sedutora, pecaminosa, o que a mulher é; Maria, a virgem pura e santa, o que a mulher devia ser. Quanto a ele - Adão, o que ele é; isento, (por decreto divino) do "dever ser".
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)

1 comentário:
Sugiro, embora desconheça a obra, de ligar Adão ao "marialvismo".
O Zé Cardoso Pires, faria isso
Enviar um comentário