segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

como a ternura


 Fredrikstad (lago gelado)

as palavras nascem da tua boca.
oiço-as e sei-lhes intuitivamente
os tons, os cheiros, os vincos da voz,
as intenções tónicas de cada sílaba.
são rebentos de benquerença,
que germinam no solo arável que sou
nascem em mim, e logo 
as pouso na tua boca para as vivificar. 
passeamos pelas margens do lago,
o gelo geme quebradiço sob os pés 
e os patos reais interpelam-nos 
filados a algumas possíveis migalhas de pão,
derrapam na superfície sólida do lago
abrindo as asas como num velho desenho animado 
de Walt Disney.  fazem-nos subir ao rosto o riso mais remoto
que guardáramos há muito com outras coisas de infância
em gavetas meio esquecidas.
nunca soube explicar aquela coloração
verde-azul - azul veludo, verde metálico -
que reveste o pescoço dos patos machos.
em tudo semelhantes às pequenas réplicas de louça
que, nítidas, observo numa sala do passado.
coloração indizível igual à de certas palavras
que escorregam desajeitadas,
no gelo longo dos invernos, de asas abertas, 
palavras de paz, à beira de nos fazerem felizes.
luzidias, acetinadas… como a ternura.
quem disse que tonalidades frias
não vestem a ternura?
quem disse que um coração frágil, sempre a doer, 
não suporta o rumor escarlate de uma romã
se ela vem, dadivosa, cercar o poema
à hora de alimentar os afetos?



2 comentários:

Rogério G.V. Pereira disse...

(deixa que pense que teu poema foi dedicado à Minha Alma. Sei que será presunção minha... mas deixa...)

Graça Pires disse...

Quem disse? Quem diz tantas coisas que não entende? Mas tu, minha Amiga, sabes do que falas e dizes as palavras certas que vêm direitas ao coração de que te lê.
Um Ano muito bom.
Um beijo.