quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O que dirá?


 (pintura: diego simancas)


pobre poema.
que fé o fará correr ainda
atrás da palavra divina?
afiançaram-lhe a sua morte,
faz tempo…
desvincula-se, cético.

em fomes se afunda, o poema,
animal sem dono, a deambular nas ruas,
nas vielas...
ascende a quartos escuros,
às sombras diurnas e noturnas,
às horas sem música
nos subúrbios do sol.
nada mais lhe resta senão
farejar nauseado as pegadas
da vulgaridade.

que há de fazer o poema?
despir a túnica
lisa, sem costura
e roer os ossos rapados das letras
que o deformam…
que há de fazer o poema?

arremessar pedras à lua
estilhaçar o luar,
envenenar o perfume das tílias
a frescura das estrelas
e das framboesas e da hortelã …

pobre poema, dessacralizado,
o que dirá?




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