Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Eugénio de Andrade
intransponível a mudez do teu rosto
na moldura.
Que música escutas tão atentamente
Que não dás por mim?
contemplo em ti tanto
do que me é infância e inocência.
já começaram a florir as glicínias
no muro, sabes?
no ar volteja, inebriante,
o lilás do seu perfume
a acordar lembranças.
ébrias, põem-se a percorrer
os dias, os meses, os anos
que não pudemos atravessar
juntos.
penso para comigo que
deve ter fundamento
a suspeita do poeta:
a suspeita do poeta:
“algum caminho deve haver
para regressar da morte.”
essa voz de embalar é a tua,
presença amável a habitar-me os sentidos
água fresca no latejar das angústias
sopro cálido nos longos frios do inverno
júbilo na floração de poemas e sonhos.
sim, deve haver um caminho
para regressar da morte...
se assim não fosse, como esta vaga,
esta música, esta brisa, quase beijo?...
a pousar-me na alma, ave levíssima,
alegre ao ponto de chorar.
(Reeditado)
