sábado, 17 de março de 2018

Angélica



   Na berma da estrada, bem alinhadas, três ou quatro fileiras de caixas de maçãs, meticulosamente agrupadas por qualidades e tamanhos. Não se vê ninguém, mas ali bem perto está instalada, a ganhar raízes, uma velha roulotte que se abre quase automaticamente sempre que um carro para nas proximidades. Foi assim, hoje quando suspendemos a marcha para comprar maçãs. Ainda não tínhamos alcançado a “exposição” e já uma criança (que nunca víramos antes), de uns cinco ou seis anos corria na nossa direção. Plantou-se à minha frente, a distância pouca: Bom dia, menina. Que deseja? – cumprimentou, com palavras límpidas, cuidadosamente articuladas. Não pude evitar um largo sorriso. É que nem eu sou propriamente uma menina nem o “bom dia” estava de acordo com a hora marcada pelos relógios. Olhei-a. Era linda, como todas as crianças, o rosto liso e branco como o dos anjos das pinturas, o olhar vivo, o cabelo negro e liso atado num rabo de cavalo inquieto. 
 Tu é que és uma menina, não eu - retorqui. Repentinamente apertou os braços em redor da minha cintura, num abraço caloroso. A mãe que se aproximava vagarosamente, arrastando o corpo roliço, ordenou: - Larga a senhora e pede desculpa, imediatamente. Tinha um sotaque estrangeiro que me pareceu mesclado de ucraniano. Agradeci o abraço com uma carícia na cabecita negra, ainda encostada a mim. Perguntei-lhe o nome, enquanto a mãe pesava as maçãs já escolhidas. Angélica – respondeu. - Bem me parecia que terias nome de anjo! – acrescentei. 
Tem nome de mazona, isso sim – retrucou a mãe de mau humor. 
Ó mãe, mazona não, eu sou Angélica! – A graciosidade transbordava por todos os lados, desde as palavras até aos gestos de bailarina delicada. Enquanto fazíamos o pagamento, já ela se apoderava do saco de maçãs e o levava, quase a rasto, para junto do carro com o meu marido a protestar, atrás dela.
Antes que pudesse ocupar o meu assento, senti-me abraçada, de novo. Desta vez abracei-a também. Dei-lhe uma das moedas do troco para pagar o “transporte” das maçãs e entrei no carro.
Feiticeira, ouvi do meu lado esquerdo, enquanto eu e ela nos despedíamos, acenando adeuses efusivos. Não é a primeira vez que uma criança me “adota”, lá isso é verdade, mas desta vez a feiticeira não era eu, mas sim, a pequena Angélica. Eu… a enfeitiçada, claramente!