domingo, 4 de março de 2018

Entregas

(imagem: pesquisas/ ind. autoria)

todas as manhãs, as musas Erato e Euterpe
largam lira e flauta e descem,
pela vertente mais florida do Monte Olimpo
transportando cestas cheias de poemas perfeitos
[desfeitos] para a distribuição diária.
os poetas pressentindo-lhes a respiração
despertam, mas nunca a tempo
de reclamarem para si os poemas que
gostavam de escrever.
são elas, as musas, que elegem as palavras
e sem critério racional que se conheça
as entregam aos poetas para que componham
os poemas do dia.

reservam aos apaixonados felizes, as de amor:
beijos, olhares, promessas, carícias,
como se necessitassem de palavras
os apaixonados felizes.
aos desatentos oferecem palavras aladas:
nuvem, zumbido, azul, sonho…
aos outros, aos desencantados, entregam as restantes:
saudade, ausência, solidão… e outras que fazem chorar.


nem sempre justas as musas.
ainda hei de subverter-lhes as intenções,
a [des]ordem fundada.
ainda hei de escrever sonho com palavras de água
e saudade com palavras felizes de amor
e com palavras magoadas, hei de escrever um rio em flor.