sábado, 21 de abril de 2018

Ao jeito de Manoel de Barros

(imagem:pesquisa s/. ind. autoria)


O nada é bom para a Poesia, diz o poeta. E eu acredito. Sempre que escrevo um poema é para contar o nada. Por vezes, teço uma fina renda de sol, ponto por ponto, malha por malha, a debruá-lo. Fica mais reluzente o nada, dentro do poema. Quando quero contar alguma coisa, faço o quê?!... Escrevo uma carta, uma sms rápida ou um pormenorizado relatório com palavras de luvas, saltos altos e chapéu de três ou mais bicos que, pontiagudos, molestam Poesia.
Dentro do nada é que se encontram palavras boas e desinúteis como concha, rã, orvalho, giesta, beijo, ave, gafanhoto, palavras próprias para brincar com o silêncio, no pátio, até a Poesia rir encostada ao azul da tarde. Sereno o semblante do azul!
Não fosse tão cheia de nadas a voz da Poesia e eu não saberia cantar o jeito de um poeta sábio que quer renovar o homem / usando borboletas. Para aprender, ando eu, há muito, muito tempo, na apanha de libélulas para ventilar o mundo, enquanto o poeta não convence as borboletas da urgência de renovar o homem.  
Somos trabalhadores por conta da Inventária e talvez o nosso futuro seja o despedimento por justa causa, (lentidão caracolítica no (in)cumprimento das utopias). Apesar disso, todos os dias desampliámos a noite. Não custa nada desampliar uma noite. Basta fazer cair umas gotinhas de água pura no coração das palavras desnecessárias para elas não perderem o poder de voar livres.  O adejo de palavras livres imensa-me...