(imagem:pesquisa s/. ind. autoria)
O nada é
bom para a Poesia, diz o poeta. E eu acredito. Sempre que escrevo um poema é para
contar o nada. Por vezes, teço uma fina renda de sol, ponto por ponto,
malha por malha, a debruá-lo. Fica mais reluzente o nada, dentro do
poema. Quando quero contar alguma coisa, faço o quê?!... Escrevo uma carta, uma
sms rápida ou um pormenorizado relatório com palavras de luvas, saltos
altos e chapéu de três ou mais bicos que, pontiagudos, molestam Poesia.
Dentro do nada
é que se encontram palavras boas e desinúteis como concha, rã, orvalho,
giesta, beijo, ave, gafanhoto, palavras próprias para brincar com o silêncio,
no pátio, até a Poesia rir encostada ao azul da tarde. Sereno o semblante do
azul!
Não fosse
tão cheia de nadas a voz da Poesia e eu não saberia cantar o jeito de um poeta
sábio que quer renovar o homem / usando
borboletas. Para aprender, ando eu, há muito, muito tempo, na apanha de
libélulas para ventilar o mundo, enquanto o poeta não convence as borboletas da
urgência de renovar o homem.
Somos
trabalhadores por conta da Inventária
e talvez o nosso futuro seja o despedimento por justa causa, (lentidão
caracolítica no (in)cumprimento das utopias). Apesar disso, todos os dias
desampliámos a noite. Não custa nada desampliar uma noite. Basta fazer cair
umas gotinhas de água pura no coração das palavras desnecessárias para elas não
perderem o poder de voar livres. O adejo
de palavras livres imensa-me...
