sexta-feira, 13 de abril de 2018

Garças





Chegas,
barco deslizante sobre a lisura azul da água
a cobrir um pensamento, quiçá, demasiado matinal.
Desta imagem, guardo um cântaro de água, já aqui
para não morrer de sede, além.
Súbito, o medo de adoecer, outra vez
do neo-bucolismo crónico que me afeta.
Expulso das mãos os juncos esguios
os salgueiros chorosos, os adjetivos faustosos...
Às garças que se aproximam, garbosas
xô… xô…xô…
até que em nuvens de penas se desfaçam.

O estrondo de uma cadeira a cair
estilhaça fatalmente o silêncio,
bomba violenta riscando a fogo o céu.
Não chegas, afinal. O poema é convulsão e ruína,
um choro apavorado de crianças nuas, 
ao longe,
e esta febre cava incapaz de afrontar a noite,

as garças… as graças… as garças!

(imagem s/ ind. autoria)