«É da realidade
que nascem os contos mais espantosos.»
Hans Christian
Andersen
Hans Christian Andersen queria ser um
poeta para todas as idades e conseguiu-o: há mais de um século que cativa os
corações tanto de crianças como de adultos. Notáveis pela capacidade descritiva
e profunda sensibilidade, os seus contos transmitem lições subtis sobre
diferentes aspetos do comportamento humano […]
In contracapa
****
Do mestre
dinamarquês, tenho a última edição de “Contos” editada na “Temas e Debates - Círculo-Leitores”
(novembro, 2015). Reúne 156 contos, todos eles fascinantes porque conjugam em
si três dimensões fundamentais, na literatura para os mais novos: estética,
lúdica e ética.
Nunca me cansarei do “Era
uma vez, num país distante…” ***
O menino que
não gostava de ler
[…]
eu, o narrador,
sei por experiência que se puser as palavras todas de castigo, não consigo contar
história alguma porque qualquer história necessita de acontecimentos e os
acontecimentos necessitam de acontecer, mas sem palavras não podem existir,
pelo menos dentro de livros. O que também acontece, por vezes, é que algumas palavras
gostam de criar desordem nas minhas ideias quando tenho de as escolher para as
minhas histórias. É preciso acarinhá-las, domesticá-las primeiro para que digam
o que eu quero dizer e não o que elas querem desdizer.
Bem,
bem, voltemos atrás:
Era uma vez, num país distante, um menino que não gostava de ler.
Como é
que eu sei? Basta vê-lo na biblioteca: enquanto os seus colegas se deleitam
com livros de ciência ou de aventuras, de viagens fantásticas cheias de
peripécias, de perigos e desafios, de heróis que vencem monstros medonhos, de
monstros medonhos que querem ser heróis, ele, o menino que não gostava de ler,
mexe distraidamente numa estante, a escolher com o máximo cuidado o livro que não vai ler. Pega num, coça o nariz, folheia outro, coça a cabeça, ri-se de um
que lhe faz cócegas na barriga e boceja ao tocar noutro que lhe dá uma
grande soneira. Há um que pesa muito e outro que pesa pouco, um grande
de mais e outro demasiado pequeno; e outro e mais outro e uma estante cheia
deles e por cima dessa outra, e outra debaixo dessa, e nenhum livro que o
menino queira ler, não fosse ele o tal menino que não gostava de ler.
[…]
Excerto de um conto meu (inédito) neste
Dia Internacional do Livro Infantil

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