Há dias em que me pergunto que lugar será
esse onde se geram os poemas, como entrar nele, aceder aos arquivos, (aos
mortos e aos vivos), abrir portas secretas, armários, gavetas, caixas, ficheiros;
perceber por meio de que mecanismo esquivo e complexo acontece um poema.
Outros há em que todas essas questões se tornam
de resposta muito fácil. Atravessar uma sala, airosa, apesar da chuva, os
livros nas prateleiras a cochicharem tímidas saudações à nossa passagem, intercaladas com as
boas vindas das pessoas de carne e osso que ali trabalham, subir uma escada enroladinha, até ao
“sótão” e deparar com um grupo de crianças sorridentes, desejosas de uma ajudinha para desvendar, reinventar, criar e escrever histórias, pode bem ser o poema do dia, ao alcance da mão.
Tanto mais que o cenário convida: da janela veem-se os telhados vizinhos onde a qualquer momento pode aparecer um gato ou um pombo. Dentro, acomodados nos cantos, marionetas, fantoches,
flores, animais, palhaços, casinhas de cartão com flores nas varandas e
portas entreabertas, roupagens e adereços vários, personagens que, em tempo de descanso,
ali se encontram para conviver e lembrar-nos como pode ser fascinante e diverso o
mundo dos livros, que é como quem diz, o mundo propriamente dito.
[Imagina que és um guardador de sonhos e
que…]
Posso escrever coisas
estranhas?
[...]
É que os meus sonhos são sempre tão engraçados! Esse gato branco, por
exemplo, se eu sonhasse com ele, sabe o que ia acontecer?
[…]
Caía-lhe em cima uma
grande lata de tinta preta...
E depois... e depois... e depois…
Rodrigo
No fim, é bom de ver que tudo vai dar ao mesmo, na hora de fazer
diabruras ou de "dar turrinhas", quer o gato [ou o menino] seja
branco ou negro ou de outra cor qualquer.

