segunda-feira, 23 de julho de 2018

Livros e outros voos


  
   
Aprendi a catalogar os livros pelo barulho que fazem ao cair desde que um me caiu nas mãos com estrondo e os alicerces do mundo balançaram tremendamente, ameaçando o desmoronamento de quase tudo o que antes me fora mundo. A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge é apenas um exemplo. Depois de lido foi preciso muito tempo para que tudo se harmonizasse nos novos lugares de equilíbrio e (des)conforto. 
 Há outros livros, no pólo oposto, que são leves como  penas, soam como se isentos de peso; não soam, melhor dizendo, mas desses não poderia, se o quisesse fazer, referir um único título, pois de tão aeriformes, de tão gasosos, evolam-se sem deixar sinais da sua passagem. 

Quando se chega a uma certa idade, percebemos que convém ter em conta a economia do tempo para que sejam os momentos de leitura proveitosos. Uma das minhas estratégias é escolher o que vou ler pelo nome do autor. De Lídia Jorge tenho em mãos o Estuário e quanto mais mergulho nele mais me sinto pequenina e, mesmo não o querendo, vem perturbar-me o facto de algumas pessoas me trocarem o nome pelo dela. Lamento profundamente, nesses instantes, ter adoptado o nome da minha avó, Lídia Borges, em sua homenagem, como pseudónimo. Porquê? Porque no lugar de Lídia Jorge, não gostaria de ser confundida com um autor de livros leves. Lembro-me de, em 2007, (aquando do meu primeiro livro para crianças), ter pensado que a minha avó possuía um nome fortemente literário. Afinal, havia nele a Lídia de Ricardo Reis, o Borges, de Jorge Luís. Uma avó que conta histórias do reino do maravilhoso e a evocação de dois dos nomes mais proeminentes das Letras universais; tudo parecia conjugado para que eu me sentisse confortável no meu nome de escrita (que eu pensava ficar-se por ali, por aquele livro). Mas o inesperado veio fazer-me sentir mal, muitas vezes, pelas confusões e transfigurações (não tão raras como eu gostaria) que me deixam constrangida, contrariada e até atormentada. Trocas que acontecem nas mais diversas situações, em privado e até publicamente, trocas que me elevam a mim, mas que eu rejeito peremptoriamente, pelo simples facto de apequenarem esse nome maior da nossa literatura contemporânea que é Lídia Jorge. De cada vez que me chamam Lídia Jorge alguma coisa dentro de mim se desconjunta, como se de uma acusação  injusta eu fosse vítima, a da usurpação de um nome de outrem. O Jorge e o Borges são tão longe, mas certas pessoas, menos atentas/atenciosas (que a atenção é coisa exigente de mais, nos dias que correm), julgam, pela sonoridade apenas, o longe, próximo. Por vezes, entre a zanga e a contrariedade, como em legítima defesa, afirmo: "Lídia Jorge é uma grande romancista, eu sou uma escrevinhadora de  versos"... e não me importo nada com o mal-estar causado.
    
        Poderia ser Olívia, Olívia Maria, Olívia Marques para sempre, em qualquer lugar, claro, o nome que me foi dado pela mesma avó, Lídia, minha madrinha, em homenagem a sua mãe, mas não estando ela aqui, como saber que me perdoaria ter desistido de a perpetuar, de a ter sempre presente no coração, através das mãos, quando escrevo?



         (Falar de Lídia Jorge, da minha admiração pela pessoa e pela escritora que é, foi por algum tempo, tema tabu, para mim, por tudo o que acima explicito. Mas, agora sei ver melhor: se o pano é limpo como lhe notar a nódoa?)