Aprendi a catalogar os livros pelo barulho que fazem
ao cair desde que um me caiu nas mãos com estrondo e os alicerces do mundo
balançaram tremendamente, ameaçando o desmoronamento de quase tudo o que antes
me fora mundo. A Costa dos Murmúrios de Lídia Jorge é apenas um exemplo. Depois
de lido foi preciso muito tempo para que tudo se harmonizasse nos novos lugares
de equilíbrio e (des)conforto.
Há outros
livros, no pólo oposto, que são leves como penas, soam como se isentos de
peso; não soam, melhor dizendo, mas desses não poderia, se o quisesse fazer,
referir um único título, pois de tão aeriformes, de tão gasosos, evolam-se sem
deixar sinais da sua passagem.
Quando se chega a uma certa idade, percebemos que
convém ter em conta a economia do tempo para que sejam os momentos de leitura
proveitosos. Uma das minhas estratégias é escolher o que vou ler pelo nome do
autor. De Lídia Jorge tenho em mãos o Estuário e quanto mais mergulho nele mais
me sinto pequenina e, mesmo não o querendo, vem perturbar-me o facto de algumas
pessoas me trocarem o nome pelo dela. Lamento profundamente, nesses instantes,
ter adoptado o nome da minha avó, Lídia Borges, em sua homenagem, como
pseudónimo. Porquê? Porque no lugar de Lídia Jorge, não gostaria de ser
confundida com um autor de livros leves. Lembro-me de, em 2007, (aquando do meu
primeiro livro para crianças), ter pensado que a minha avó possuía um nome
fortemente literário. Afinal, havia nele a Lídia de Ricardo Reis, o Borges, de
Jorge Luís. Uma avó que conta histórias do reino do maravilhoso e a evocação de
dois dos nomes mais proeminentes das Letras universais; tudo parecia conjugado
para que eu me sentisse confortável no meu nome de escrita (que eu pensava
ficar-se por ali, por aquele livro). Mas o inesperado veio fazer-me sentir mal,
muitas vezes, pelas confusões e transfigurações (não tão raras como eu
gostaria) que me deixam constrangida, contrariada e até atormentada. Trocas que
acontecem nas mais diversas situações, em privado e até publicamente, trocas
que me elevam a mim, mas que eu rejeito peremptoriamente, pelo simples facto de
apequenarem esse nome maior da nossa literatura contemporânea que é Lídia
Jorge. De cada vez que me chamam Lídia Jorge alguma coisa dentro de mim se
desconjunta, como se de uma acusação injusta eu fosse vítima, a da usurpação de um nome de outrem. O Jorge e o Borges são tão longe,
mas certas pessoas, menos atentas/atenciosas (que a atenção é coisa exigente de
mais, nos dias que correm), julgam, pela sonoridade apenas, o longe, próximo.
Por vezes, entre a zanga e a contrariedade, como em legítima defesa, afirmo:
"Lídia Jorge é uma grande romancista, eu sou uma escrevinhadora de
versos"... e não me importo nada com o mal-estar causado.
Poderia ser Olívia, Olívia Maria, Olívia Marques para sempre, em qualquer lugar, claro, o nome que me foi dado pela mesma avó, Lídia, minha madrinha, em homenagem a sua mãe, mas não estando ela aqui, como saber que me perdoaria ter desistido de a perpetuar, de a ter sempre presente no coração, através das mãos, quando escrevo?
(Falar de Lídia Jorge, da minha admiração pela pessoa e pela escritora que é, foi por algum tempo, tema tabu, para mim, por tudo o que acima explicito. Mas, agora sei ver melhor: se o pano é limpo como lhe notar a nódoa?)
