segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Memória(s)



Nos meus primeiros anos de trabalho como professora, cruzei-me com uma colega, Ana, (nome fictício) numa dessas escolas isoladas do alto Minho para onde nos deslocávamos diariamente no meu Austin 850, azul, comprado com sacrifício, para poder regressar a casa todos os dias, no final das aulas, em vez de o fazer só aos fins de semana como acontecia com outras colegas de profissão, em outras aldeias próximas daquela, sem condições de alojamento, muitas vezes, e sem transportes, quase sempre. Eu levava a Ana, todos os dias. Era suposto dividirmos a despesa da gasolina, mas o que acontecia, chegado o fim do mês, que por vezes era já o meio de outro, com o recorrente atraso no pagamento dos vencimentos, (levantados nas repartição de finanças da sede de concelho), a Ana quase nunca podia dispensar a sua parte. E era tal o seu embaraço, a sua preocupação que eu, ainda sem canseiras nem obrigações de maior, ia deixando passar. Tinha 18 ou 19 anos e sofria de uma inocência quase cruel que produzia nos outros uma ilusória ideia de asas a saírem-me das costas. Mas não somos anjos por querermos. Somo-lo, em determinados contextos, por uma espécie de obrigação, ainda que o conceito seja bastante discutível e se expanda entre significações várias, segundo os princípios gerais da educação recebida ou da natureza da alma que coube a cada um. Muitas vezes sentia-me na obrigação, (cá está ela), de dividir com a Ana o meu almoço, que o dela se restringia a uma pobre maçã. Perante as minhas débeis interrogações, respondia com o sorriso tímido de sempre – chega bem! E os seus enormes olhos verdes emudeciam, envergonhados. A Ana era sozinha. Não se lhe conhecia amigo, companheiro ou namorado. Tinha um secreto prazer em dizer “ninguém” quando se referia a ela própria, vestia-se de negro como uma viúva, usava sapatos de homem, com os cordões quase sempre desapertados e o cabelo usava-o atado num rabo de cavalo magrinho e escorrido. Julgava-se invisível, uma sombra sem existência. Um dia contou-me: conheço o Dr. Adolfo (Miguel Torga). Ele era visita, não sei se assídua, se não, da sua casa, em Montalegre. Haveria laços de amizade que o ligavam a seu pai e a seu irmão, ao tempo, professor na universidade, em Coimbra. A partir daí percebi que tinha por Torga uma admiração profundíssima, citava-o vezes sem conta, soletrava-lhe os versos a propósito de quase tudo e, quando pronunciava o seu nome, tinha um jeito engraçado de se encolher atrás de um sorriso acanhado, ameninado, (estou a vê-la), como a pedir desculpa por o ter feito, mais uma vez. Fosse eu mais perspicaz e teria percebido logo que se tratava de uma paixão, uma daquelas paixões assolapadas e guardadas no fundo mais fundo da arca dos segredos, criando teias de aranha e traças e  fungos, paixões  que algumas jovens desenvolviam/desenvolvem, como uma doença maligna, por homens mais velhos, comprometidos, quase sempre, que nem lhes pressentem a existência). E assim enviuvavam sem sequer terem chegado a casar.
Estava ela na altura a viver em Braga, num andar alugado porque se propunha completar uma licenciatura em Letras. Quando, um dia, subi a sua casa, não me recordo qual o motivo (normalmente deixava-a à entrada do prédio), notei-lhe um certo constrangimento cuja razão apreendi mal ela abriu a porta: os únicos móveis visíveis eram uma cama, uma pequena mesa e uma cadeira. De resto, todo o espaço estava ocupado com livros. Pilhas de livros, livros e mais livros, livros que nunca mais acabavam, na sala, no quarto de dormir no quarto de hóspedes sem hóspedes, na despensa… Era preciso procurar bem um bocado de chão livre para pousar os pés e poder circular de um lado para o outro. Devo ter aberto a boca de espanto porque ela balbuciou, como quem se explica: vês agora o que faço a tudo o que ganho? E se te disser que tenho as rendas da casa em atraso e faturas em dívida na livraria, e …e…e…

O tempo, os concursos, as colocações, a saída dela do ensino básico, fizeram com que a perdesse de vista, mas nunca mais a esqueci. Era uma pessoa doente de livros, uma maleita terrível, como qualquer outra que nos domine e nos comande a vontade, até aos limites do racional.
Quanto às minhas asas, como já terão percebido, caíram-me, “pena a pena”. E agora, quando penso na Ana vejo-lhe aquele sorriso enigmático de gioconda e uns olhos verdes que a "doença" estragou. E lembro-me da minha obra completa de Vergílio Ferreira que lhe emprestei porque ela precisava muito, muito… E nunca mais ma devolveu.

Vejam só o quanto me vem à lembrança, hoje, que mais uma vez, procurei por todo o lado o meu Todos os Poemas de Ruy Belo que está "perdido", embora eu saiba a quem o emprestei… 

De hoje em diante, escusam de me tentar, não emprestarei nem mais um livro.




3 comentários:

Maria João Brito de Sousa disse...

Há anos que os não compro. Vou tendo a sorte de ser presentada.

Pelas mesmíssimas razões fiquei já sem umas boas dezenas deles...

Graça Pires disse...

Memórias que comovem pela forma como as contas, minha Amiga. Conheci pessoas assim: sós, metidas com elas, s viverem com o mínimo dos mínimos… E cultas.
Pois, emprestar livros é sempre um risco de ficar sem eles…
Uma boa semana.
Um beijo.

Rogério G.V. Pereira disse...

Acho que conheci a Ana. Se não essa, outra. E outra. E outros...

Quanto a livros lidos e idos,
sem retorno?
Quase todos.
Eu explico:
Entre a minha adolescência e a minha mobilização para a Guerra Colonial fui somando compras sem conta.
A colecção das publicações da Seara Nova, até 1969, toda.
A colecção Livro de Bolso da Europa América,até 1969, toda.
Aquisições a esmo, no Centro do Livro Brasileiro,
e outros da Livraria Barata e de um alfarrabista das Escadinhas do Duque, muitos.
Doei-os todos a bibliotecas.
Não porque temesse morrer na guerra... mas dois anos... e... sempre senti que um livro é para ser lido.

Se me dói não os ter?
Doeria mais não os ter dado a ler...