Abre-se um livro e vai-se por ali adiante, desarmado, sem nenhuma reserva no pensamento, nenhuma precaução no andar. Vai-se e pronto. Este que aqui tenho (oferecido, de certeza, pois não o compraria e roubá-lo, nem pensar!...) é composto de fragmentos numerados, ainda que aleatória a ordem. Uma espécie de Livro do Desassossego, (sem miolo nem lustro) com a particularidade de se apresentar desorganizado pela mão do próprio autor, talvez para que a ambicionada ideia de “desalinhamento” não corra o risco de passar despercebida aos olhos do leitor.
Fico impressionada com a fluidez do discurso, o
domínio da Língua, a qualidade do léxico… Numa primeira fase julgo a palavra
autêntica, dou-lhe crédito. Mais umas páginas e o autêntico transmuta-se em rusticidade e rapidamente chega-se ao grotesco, à insolência, à infâmia. Vou lendo já meio nauseada e,
por fim, o que parecia, deixa de parecer e passa a ser, inequivocamente, um
composto básico de 50% de arrogância e 50% de jactância: painéis sucessivos de
imagens ensanguentadas, uma retórica uniformizada a descair perigosamente para o - mata, se não morres ou para o - morre, se não és capaz de matar.
Aqui e ali, parece ao leitor, sitiado, pressentir o rumor de uma corola prestes a abrir no seio de uma página menos exasperada,
mas logo descobre que afinal a luzerna, não é mais do que o desenho vivo duma
pétala duramente espezinhada. A angústia sobe, fixa-se ao nível do peito, o coração sobressaltado, os pulmões inoperantes como se o autor, após ardilosa perseguição
tivesse finalmente conseguido encostar um revolver à têmpora palpitante do
leitor.
O que mais incomoda é ver que no meio de tanta “verdade”
absoluta, inquestionável e pungente, tudo quanto se distancia deste observar através da guarita afunilada do
imundo, do risível, do insano é considerado despropositado e inaceitável no texto literário, (retrato do mundo). E quem o aborda de outra perspectiva é acusado de cínica concórdia, errância de mentes atormentadas que padecem de impura e
abominável vaidade.
Sinto-me afetada, "envergonhada" por ousar abrir a minha
janela que dá para o jardim da cidade. Estou tentada a pedir desculpa! (Não peço.) Parece-me agora ato tenebroso trazer ao texto
as luminosidades e as nocturnidades que trago em mim, longe dos campos de batalha onde o
humano expõe despudoradamente a sua indescritível bestialidade congénita.
Olhar como olho, ver como vejo, escrever como escrevo, faz de mim, à luz
destas ideias lúcidas, uma
incorrigível intrusa no estreito pátio das escritas. As letras são propriedade de uma mão (mal cheia) de poetas, dignos
de tal título, neste país “de maus poetas”. (Não cheguei a perceber se se
inclui nesta mão mal cheia, o ilustre autor de tantas "originalidades" originais.)
Vejo a Inteligência como uma qualidade superior do
homem, aquela que o torna dissemelhante de qualquer outro ser vivo, à face da
Terra, mas, atrevo-me a acrescentar que para merecer tal designação, a
Inteligência carece de um coração que lhe preencha o peito de lés a lés e bata ao ritmo dos
sentires, dos saberes e dos fazeres.
De outro modo, artificial a inteligência!
