domingo, 23 de setembro de 2018

Olhares (2)


 (Valery Hudozhnik)

Segundo olhar:

Na minha terra
o outono tem uma luz que é só sua.
É por ela que me levanto cedo,
para a beber banhada na frescura
das horas primeiras da manhã.
Lentamente,
como um sumo de frutos
acabado de fazer.

E os muros no outono têm a cal acesa
dos poemas de Eugénio,
e os versos,
as bocas tingidas pela doçura 
das últimas amoras.
Cheira a mosto, sabe a vinho. É bebedeira,
dança, fascinação,
o outono na minha terra.


Tocam-me à campainha. Atendo. Estendem-me
um cestinho cheio de figos maduros. [Outro?]
"Para adoçar o domingo". 

No outono, no recanto mais sombrio do quintal,
há um vaso novo de nostalgias em flor.
Pudesse eu ignorá-lo…


Terceiro olhar:
...